O HAITI DOIS ANOS DEPOIS

12 jan

10 ÍTENS QUE CONTINUAM NO CHECKLIST

Minha primeira ida ao Haiti ocorreu 19 dias após o terremoto de 12 de janeiro de 2010. Nossa equipe caminhou em meio ao cheiro de morte da capital, e presenciou o comportamento da população ainda sob o primeiro impacto.

Hoje, ao ver que se cumprem dois anos desde o ocorrido, continuamos no país com projetos de desenvolvimento. Portanto, sinto-me apto a trazer um breve diagnóstico da evolução do país desde a tragédia. Não se trata de algum tipo de denúncia, mesmo porque sei que muitas das questões aqui apresentadas são quase insolúveis, ao menos por ora. Ainda assim, creio que esse texto possa acender algumas luzes. Seguem abaixo 10 comentários acerca da situação atual no Haiti.

 

1) Entre 500-700 mil pessoas vivem nos camps

Aos olhos da comunidade internacional, o problema da moradia continua sendo o mais grave. Centenas de milhares de famílias foram removidas das regiões mais afetadas da capital para áreas remotas, a aproximadamente 1 hora do centro, principalmente se considerarmos o tráfego local. Áreas comoCamp Corrail e Camp Canaan surgiramcomo berços de esperança: ali se construiria o novoHaiti. No entanto, a maior parte das famílias ainda vive em barracas, o sistema de saneamento está longe de ser finalizado e não se vislumbra que, em qualquer local próximo dali, haja alternativas de saúde, educação e trabalho disponíveis. Essa é a realidade do acampamento haitiano. E é nessas condições que ainda vive um a cada seis habitantes de Porto Príncipe.

 

2) Os preços subiram abusivamente

Claro que aqui estamos falando de um fenômeno natural.Comoo número de estrangeiros aumentou em grandes escalas após o terremoto, a tendência é que os preços sejam “para turista”. Mas a população local, já miserável e agora sem opções de trabalho, é a maior prejudicada.

Antes do terremoto, um engraxate cobraria 5 gourdes pelo seu serviço. Agora, cobra 40 gourdes. A comida é mais cara, mesmo porque as marcas que enchem as prateleiras se preocupam em atender a demanda de exigência dos estrangeiros que chegaram. O arroz local foi substituído pelo parboilizado americano, que é bem mais caro. Sem contar a moradia: o aluguelem Porto Príncipechegou a subir 400% nesses dois anos, nas regiões onde as casas permaneceram intactas após a tragédia.

 

3) A comunidade internacional ainda não investiu o que prometeu

Vez por outra, tem havido motins na capital haitiana por conta do investimento internacional prometido, que não chega à população. Na verdade, grande parte dos bilhões alçados não foram disponibilizados por falta de confiança na gestão haitiana. O governo é novo, e precisa ainda provar-se fiel ao seu povo e distante do histórico de corrupção.

 

4) A corrupção continua, e em alguns casos aumentou

Em nossa primeira viagem, foi fácil passar da alfândega haitiana com caminhões de alimentos vindos da República Dominicana. Com o tempo, esse tipo de prática foi se tornando cada vez mais inviável. O fato é que muitos postos de fiscalização se tornaram em oportunidades para arrecadar propinas com base na boa fé das equipes missionárias e voluntários de ONGs que povoam as fronteiras e o aeroporto, em viagens com intuito beneficente.

 

5) A maior parte das ONGs ainda trabalha de forma assistencialista

Ainda não há projetos de desenvolvimento integral que pensem no povo haitiano em longo prazo. Os projetos existentes são bons, e vêm de organizações que honestamente querem ajudar. Mas vê-se, por exemplo, muitas equipes que vão em curto prazo e não conseguem efetivar ações duradouras. Ainda há distribuição de alimentos nos camps, a exemplo do que ocorria na fase emergencial pós-catástrofe. Não se vê muitos projetos nas áreas de educação e formação, que preparem indivíduos para reagir por si mesmos.

 

6) O problema das adoções continua sem solução

O número exato ainda é incerto, mas fala-se em 180.000 órfãos antes do terremoto, e 340.000 depois. Ou seja, quase dobrou. No entanto, estima-se que haja menos de 200 orfanatos noHaiti, e a capacidade média é de 30 crianças em cada um deles. A política de adoção é ultrapassada e corrompida. Está nos planos do novo governo mudar isso, e facilitar que as crianças haitianas possam ser adotadas internacionalmente com maior facilidade. Mas isso ainda não aconteceu.

 

7) O problema do desemprego

Uma das perguntas que eu ainda não sei responder noHaitié essa:comoas pessoas sobrevivem? Mesmo estando por lá tantas vezes ao ano, ainda não tenho essa resposta. Não seicomonem onde trabalham. São milhares de pessoas de ambos os sexos e de todas as idades simplesmente perambulando nas ruas. O comércio informal é um dos meios de subsistência mais comuns. As ONGs chegaram e empregaram os mais educados, principalmente os bilíngües. O problema, no entanto, é estrutural e não há qualquer estimativa de melhora.

 

8) As estruturas fundamentais não têm previsão de reconstrução

Um carro noHaitidura em média 3 anos. E não há carros de passeio, somente veículos 4X4 conseguem transitar. A estrutura de ruas sempre deixou a desejar, mas o terremoto piorou as coisas.

Os hospitais e escolas caíram, e os que têm sido construídos são prédios temporários, geralmente em madeira, que devem acabar se tornando definitivos. O mesmo acontece com os prédios de governo. Nenhuma organização sabe fornecer uma planilha ou qualquer tipo de estimativa referente aos projetos de construção civil.

 

9) Água ainda é um problema majoritário

A cólera não foi completamente erradicada doHaiti. A epidemia de 2010 foi controlada, mas a doença permanence matando. Além da cólera, qualquer doença relacionada à água contará com grandes ocorrências no país.

O solo haitiano é desfavorável para a perfuração de poços e a extração de água. Nas ruas, é mais fácil e barato adquirir coca-cola do que uma garrafa de água mineral. Grandes investimentos ainda precisam ser feitos nesse sentido.

 

10) A identidade da nação vê-se comprometida

Apesar de representar uma das ONGs presentes noHaitinesse momento, reconheço que a presença internacional tem roubado a identidade haitiana. Há todo tipo de especulação acerca da influência do ex-presidente americano Bill Clinton noHaiti. É muito comum que os estados e as organizações estrangeiras decidam o rumo de nações ruídas,comoé o caso. O haitiano passa a depender dos países auxiliadores, e automaticamente tem maior dificuldade para notar sua força intrínseca.

 

Concluindo

Apesar de todas as constatações acima, houve avanços. Muitas organizações trabalham de maneira correta. A ONU, as tropas militares brasileiras e o Itamaraty agem no país de maneira honrosa. Organizações católicas e protestantes também têm sido eficazes no atendimento a crianças e famílias, e na construção de escolas, templos, clínicas e estruturas comunitárias. ONGscomoViva Rio, Cáritas e Visão Mundial têm feito um trabalho marcante.

Ao participar da realidade do país, notamos que muito da lentidão nos processos tem a ver com a cultura e com dificuldades que não serão vencidas da noite para o dia. Mas é possível crer que oHaitiserá uma nova nação. O povo haitiano crê. Vamos somar com eles! Deus esteja!

 

Mário Freitas é presidente da MAIS (www.maisnomundo.org).

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NÃO, O SUPERMAN NÃO SE CONVERTEU!

7 jan

 

Hoje me enviaram via facebook o link de uma canção entitulada “O Superman se converteu”. Parei para ouvir, e no início imaginei que fosse uma abordagem zombeteira de alguma banda secular, a exemplo do grupo Asa de Águia, que nos anos 90 fez sucesso escarnecendo do evangelho com um hit que repetia que “na casa do Senhor não existe Satanás”. Para minha (quase) surpresa, porém, percebi que não era nada disso: tratava-se mesmo de uma banda cristã celebrando a suposta conversão do super herói que representa e encoraja os norte-americanos desde as tirinhas dos anos 40.

Não sei quanto tempo tem a música; hoje ouvi pela primeira vez. Também não tenho dados sobre a banda. Não vou usar desse texto para fazer o que muita gente pode fazer melhor que eu: questionar a validade musical do hit, elucubrar acerca de sua legitimidade teológica ou mesmo colocar em cheque o propósito desta empreitada poética. Prefiro ironicamente adentrar a “brincadeira” e discordar da banda, afirmando simplesmente que o Superman NÃO se converteu.

Concluo que o Superman não tenha se convertido por três razões fundamentais e simples, as quais passo a respaldar:

1) O Superman não se converteu porque ninguém genuinamente convertido esconderia sua real identidade – O Superman, na verdade, é Clarke Kent, um jornalista mediano que não pode assumir quem é. O cristão autêntico tem interesse de que todos saibam quem ele é, pois vive à semelhança de Cristo e quer que o mundo conheça o Salvador mediante o seu testemunho.

2) O Superman não se converteu porque ninguém genuinamente convertido se auto-atribuiria a tarefa de salvar o mundo – Sei que isso contradiz o evangelho que o Brasil tem conhecido, mas aqueles que se encontram com Cristo atribuem a Ele toda condição heróica, e contentam-se com a sombra da Sua graça. De acordo com o verdadeiro evangelho, a salvação só ocorre através de Cristo, e um homem não pode salvar outro homem. O sacrifício de Cristo na cruz é suficiente para consumar Seu soberano plano de redenção.

3) O Superman não se converteu porque ninguém genuinamente convertido continua super-homem – Na Bíblia, homens que tiveram um encontro com Cristo foram marcados por um senso de inadequação. Foi o caso de Moisés, que pensava-se incapacitado para falar; de Isaías, que considerava-se impuro; de Jeremias, que vislumbrava-se imaturo; ou mesmo de Pedro, que conhecia sua condição de pecador. O convertido proclama a Cristo, e jamais a si mesmo.

Por esses motivos, sem levar em conta todas as outras razões óbvias, não posso concordar com a letra dessa exuberante obra da música baiana. E ainda há uma última razão, nitidamente irônica e definitivamente menos relevante: nenhum convertido que se preze sairia por aí voando com uma sunga vermelha por cima da calça!

No mais, que Deus abençoe a Bahia!

Mário Freitas é fã do Superman. E não gosta de axé.

FUI PASTOR DE UM EX-BBB

5 jan

TRISTES LIÇÕES DA HISTÓRIA DE EDÍLSON BUBA

Entre 2002 e 2005, fui pastor da Igreja Presbiteriana da Silva Jardim,em Curitiba. Em nossa equipe pastoral, tive a honra de trabalhar com o Pr. Jorginho Batista, que fundou a Associação de Surfistas de Cristo do Paraná e o ministério urbano GodXtreme, e que servia a equipe como pastor de jovens.

O BBB4 aconteceu entre janeiro e abril de 2004, e um de seus participantes foi Edílson Buba, empresário da noite curitibana. A primeira vez que vi ou ouvi falar de Buba foi através da própria TV. Ele era sócio de uma casa noturna na capital paranaense, e há quem diga que seu ingresso no BBB teve duas intenções: promover seu estabelecimento e seus negócios, e estabelecer-se como candidato a cargos políticos no futuro. Não houve tempo para atestar a veracidade dessas intenções.

Buba foi eliminado do programa nas primeiras semanas. Pouco depois, foi envolvido num escândalo de proporções nacionais: foi preso no aeroporto Afonso Pena, em Curitiba, por portar considerável quantidade de ecstasy.

Passados alguns dias, fui procurado pelo Pr. Jorginho. Ele me trouxe uma informação que eu desconhecia: Buba era seu amigo de infância, e ele queria visitá-lo na prisão. Autorizei imediatamente. O resultado foi favorável: Jorginho visitou o amigo, orou com ele, e voltou testemunhando que o ex-BBB estaria bem disposto a ouvir mais sobre o evangelho.

Após alguns meses, Buba saiu da cadeia, e imediatamente começou a freqüentar a Igreja Presbiteriana da Silva Jardim. Ele visitava nossos gabinetes pastorais durante a semana, pedindo oração e apoio. Ao sair da cadeia, seus negócios haviam ruído, ele estava desempregado e contraíra muitas dívidas. Buba estava à beira de uma depressão.

Curiosamente, mesmo em meio a todas as suas dificuldades, o ex-BBB iniciou na ocasião uma ONG chamada “VIDA LIMPA, VIDA LIVRE”, visando apoiar jovens no processo de libertação das drogas. A proposta era linda, mas suas preocupações financeiras eram maiores que seus planos. Por vários meses, Buba sobreviveu de cachês avulsos de programas de TV, como o de Gilberto Barros, com jogos e entrevistas envolvendo supostas “celebridades”, cantores decadentes e sobreviventes de reality shows.

Certo dia, fui visitado por Buba em meu gabinete. Ele estava decidido: queria entregar em definitivo seu coração a Jesus. Chamei Jorginho para participar daquele momento. Foi lindo, oramos juntos e celebramos aquela vitória. Ele disse que queria ser usado por Deus dali por diante, e que sua história até o momento não havia sidoem vão. Masmesmo aliviado e sentindo-se acolhido por Cristo e pela igreja, Buba não escondia seu desespero financeiro.

Poucas semanas depois, recebi um telefonema de Jorginho: “Nosso amigo Buba acaba de fazer uma grande bobagem”, ele dizia. Referia-se ao fato de que Buba havia posado num ensaio fotográfico de uma revista de conotação homossexual. Seu desespero financeiro vencera.

Saí de Curitiba em dezembro de 2005, indo pastorear a Terceira Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte. Já em BH, recebi a triste notícia da morte do ex-BBB, acometido de um câncer que o consumiu com extrema rapidez.

Não acredito na teologia punitiva do castigo, pois pessoas que nunca posaram nuas ou participaram de reality shows também morrem de câncer todos os dias. Também não posso julgar a sinceridade da conversão de Buba, que eu presenciara, mas que tornara-se questionável mediante sua decisão posterior. No entanto, se eu já não suportava a idéia de um programa de TV naqueles moldes, minha aversão pelo BBB só fez aumentar após conhecer Buba.

Nesses tempos pré-BBB, principalmente considerando a promessa de que haverá participantes “evangélicos” na próxima edição, creio que a igreja precisa posicionar-se com clareza contra esse tipo de entretenimento, que tem por princípios e “chamarizes filosóficos” a imoralidade, a pressão psicológica, a promoção intencional de intrigas e a instabilidade emocional dos participantes. Sem contar que as “oportunidades” geradas com o BBB não costumam ser as melhores: basta observar que os ex-BBBs costumam tornar-se capa de revistas pornográficas, animadores de festas e raves, coadjuvantes em programas irrelevantes de TV e militantes políticos por causas amorais.

Pense nisso. É possível viver sem precisar dar qualquer espiadinha.

Mário Freitas (@prmariofreitas) é presidente da MAIS – Missão em Apoio à Igreja Sofredora (@MissaoMAIS), que trabalha no Haiti, Burundi e Sudão ajudando a comunidade cristã. É casado com Giovana, e pai de Pietra e Chiara. Vive em Vila Velha, ES. 

A DECISÃO MAIS IMPORTANTE DA VIDA

28 dez

CONSELHOS AOS JOVENS CRISTÃOS QUE DESEJAM ENCONTRAR SUA “OUTRA METADE”

O título desse artigo pode gerar certa polêmica. Alguns cristãos vão reagir imediatamente, afirmando que a decisão mais importante da vida é aquela que gira em torno de Jesus, a saber, a conversão. E trata exatamente disso esse texto, se você prestar atenção. Repare que o artigo é direcionado a pessoas que já aceitaram Jesus, e que em sua condição jovem procuram acertar sua vida relacional. Muitas vezes, tenho visto que essa busca tira o foco de muitos jovens, que priorizam o aspecto relacional, para atender as exigências naturais do corpo ou responder a pressões e demandas sociais, mas que se esquecem que há algo mais preocupante e prioritário na vida cristã.

Em minha adolescência e juventude, eu vivi isso. Passei por todas as fases normais, inclusive a de pensar que estava ficando velho para casar e de que o tempo estava passando e correndo por fora do meu controle. Converti-me aos 15 anos, e me casei aos 26. Nesse ínterim, muitas dúvidas permearam a minha mente, muitas crises e muitos momentos de desespero. Mas creio que meu acerto teve a ver com o desenvolvimento de uma nova consciência.

A proposta é simples: mais importante do que saber com quem vou viver a vida, é saber a quem vou servir durante a vida. Encontrar o propósito e a missão de Deus para mim é mais importante do que encontrar o parceiro, visto que, se Ele haverá de prover os recursos para que eu cumpra essa missão, Ele proverá a companhia necessária.

Como missionário e palestrante, tenho encontrado muitos jovens que me dizem que têm um chamado, mas que não tem coragem de ir enquanto Deus não lhes der alguém. Questiono se esse é o procedimento correto. Hudson Taylor, célebre missionário na China, afirmou que quando Deus chama, Deus provê. Se Deus me chamou para ir, não posso temer: devo cumprir a vocação e crer que “o mais Ele fará” (Salmo 37:5), e isso obviamente inclui a vida conjugal.

Encontrar o parceiro não significa que você vai encontrar o propósito. Por outro lado, encontrar o propósito significa que Deus vai supri-lo em tudo, dando-lhe inclusive as fundamentaçõignifica que Deus vai supri-lo em tudo, dando-lhe inclusive as fundamentaç o tempo estava passando e correndo por fora do meu ces afetivas e emocionais necessárias para que a vocação se cumpra.

Assim, sou casado com Giovana há 9 anos. Temos 2 filhas. Sou feliz, pois encontrei alguém que Deus me deu para que meu chamado fosse cumprido. O chamado dela também tem sido cumprido, e Deus foi unificando nossas intenções com o tempo. Somos uma família missionária, e temos a absoluta consciência de que valeu a pena esperar pela resposta dEle, enquanto nos engajávamos na vontade dEle.

A decisão mais importante da vida tem a ver com viver para Deus, crendo que as outras coisas me serão acrescentadas. Pense nisso!

A Deus seja a glória!

Mário Freitas (@prmariofreitas) é presidente da MAIS – Missão em Apoio à Igreja Sofredora (@MissaoMAIS), que trabalha no Haiti, Burundi e Sudão ajudando a comunidade cristã. É casado com Giovana, e pai de Pietra e Chiara. Vive em Vila Velha, ES. 

É PRECISO SABER MORRER

17 dez

“Planeje os anos dourados: você pode precisar experimentá-los” (Billy Graham).

Estou terminando a leitura do último livro de Billy Graham, “Nearing Home: life, faith, and finishing well”. Nesta obra, o renomado evangelista aborda a questão da morte sob um prisma extremamente vívido. Muitos mestres o ensinaram a viver, mas ninguém jamais o discipulara acerca de como encarar seus últimos dias. Segundo a música do rei Roberto Carlos, “é preciso saber viver”. Para Billy Graham, é preciso saber morrer.

O livro acendeu algumas chamas em meu coração. Na jovialidade dos meus 34 anos, a morte não deveria ser assunto. Curiosamente, a classe média da minha faixa etária já se prepara com afinco para o dia da morte, embora quase todos evitem falar nela. São muitos os planos e seguros. Mas a preocupação deve ir além do fator econômico.
Quero levantar aqui três pensamentos relacionados à preparação para a morte. Seguem abaixo:

PENSAMENTO 1: PIEDADE
A grande questão é: quando morrer, diante de quem ou do que estarei prostrado? De todos os seguros que preciso fazer, quero estar seguro acerca de minha própria santidade, visto que sem ela ninguém verá o Senhor (Hb.12:14).

PENSAMENTO 2: PROPÓSITO
Outra pergunta importante: quando morrer, terei cumprido plenamente o propósito de Deus em minha vida? Lembro-me do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. O professor Keating, interpretado por Robin Williams, afirma que era preciso aproveitar o dia – Carpe Diem – para que, no fim das contas, não se descobrisse que não se viveu.
Não é o que quero pra mim. Ao cair da tarde, no fim da vida, quero saber que vivi a vida em sua plenitude. Quero ter a certeza de que cumpri o Seu propósito para minha história.

PENSAMENTO 3: PRIVILÉGIO
Por último, vale perguntar: até que ponto minha vida de hoje valoriza o privilégio da eternidade com Cristo? O céu já não faz parte de nossa liturgia, nem de nossas pregações, muito menos de nossas vidas. Na verdade, somos displicentes acerca da eternidade por nos acharmos merecedores dela. Somente uma visão equilibrada sobre a graça poderá fazer-nos lidar reverentemente com a questão post mortem.

Enquanto lia seu livro, fiquei sabendo que Billy Graham fora levado a um hospital em estado gravíssimo. Enquanto escrevo essas palavras, creio que ele ainda vive. Pode ser que tenha poucos dias. Quem sabe? Pouco importa. Ele saberá o que fazer quando a hora chegar.

Mário Freitas é pastor e caminha diariamente rumo à eternidade.

O DEUS DO FIM DO DIA

13 nov

Ao cair da tarde daquele primeiro dia da semana, estando os discípulos reunidos a portas trancadas, por medo dos judeus, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “Paz seja com vocês!” (João 20:19)

É muito comum ouvirmos menções acerca da presença de Deus no período da manhã. Em verdade, a Bíblia afirma que as misericórdias de Deus se renovam a cada manhã (Lamentações 3:22-23), que a alegria vem pela manhã (Salmo 30:5), e que Ele nos satisfaz pela manhã (Salmo 90:14).

De fato, a manhã é a quebra da seqüência de trevas que caracteriza a noite. A luz do dia traz uma esperança nova. Trata-se do anúncio de que, até a próxima noite, algo novo e nobre ainda pode ser feito.

Mas percebi que falamos pouco sobre a tarde. Será que o humor de Deus está condicionado somente à manhã ou a algum turno específico do dia? Por certo que não! O texto citado acima fala que Jesus apareceu aos seus, após sua ressurreição, “ao cair da tarde”. Meditemos sobre isso.

É fato que a tarde pode ser assustadora para alguns. Ela pode significar que o dia está acabando, e que não resta tempo hábil para se fazer muita coisa. Para alguns, pode significar o início das trevas, da falta de iluminação. Tarde é transição, é correria. À tarde, os bebês choram mais, e os doentes pioram nos leitos. E é aí que a graça de Deus se manifesta.

Cristo aparece no cair da tarde, e atravessa as paredes do medo. Os discípulos se reuniam trancados, escondidos, marcados pela incerteza do que lhes ocorreria nos próximos dias, já que seu Mestre havia morrido. E é nesse cair da tarde que Cristo surge, majestoso, fazendo com que sua Divindade tenha sentido.

Se hoje você se sente no “cair da tarde” da sua vida, permita que Cristo adentre suas paredes e declare, em alta e divina voz: “Paz seja convosco!”. Mesmo no cair da tarde Ele pode trazer luz ao quarto escuro da alma.

Que Ele esteja. Boa tarde!

Mário Freitas

EM BREVE…

11 nov