O IMPÉRIO CONTRA-ATACA

8 out

A AMEAÇA DE UM AMERICANISMO PERIGOSO PARA AS RELAÇÕES GLOBAIS

O jornal “O Globo” deste Sábado, 8de outubro, trouxe um texto cujo título chamou minha atenção, e provavelmente ainda gerará grande polêmica. Na matéria “Deus criou os EUA para liderarem o mundo, diz Romney”, fica claro que o discurso do pré-candidato republicano à presidência norte-americana, Mitt Romney, ressucita uma mentalidade que caracteriza o comportamento americano desde o século XIX. O portal Terra ainda divulga que o candidato promete um século de hegemonia americana sobre o resto do mundo.  Trata-se da doutrina do destino manifesto, que tem por fundamento a idéia de que o império americano, inquestionável e inabalável, existe para redimir o resto do mundo do atraso e do pecado.[1]

Há alguns meses, logo após a morte de Osama Bin Laden, escrevi em meu blog o artigo intitulado “A Morte de Bin Laden e o Globalismo Americano”. Na ocasião, meu objetivo principal era combater o pensamento exposto pelo presidente Barack Obama de que o mundo, o mundo inteiro, estaria mais seguro após a morte do terrorista árabe. Era como se essa fosse uma guerra global, o que não é verdade. É uma guerra particular americana.

Essa tendência de globalizar o interesse americano, e de, automaticamente, assumir responsabilidade pelo que acontece no mundo, tem sua raiz nessa doutrina  do “destino manifesto”. Eis o que descrevi naquele artigo:

A proposta é que Deus, em sua inquestionável providência, escolhera as nações do Ocidente para representarem sua causa. Não consistia, em sua origem, numa proposta colonialista, nem era assim percebida ou divulgada. Na verdade, oDestino Manifesto é um produto do nacionalismo, este caracterizado por um vínculo patriótico de absoluta lealdade. A idéia agregou-se rapidamente ao conceito de povo eleito do Antigo Testamento. E não se tratava de uma idéia surgida primeiramente entre os americanos; em algum ponto da história, quase todos os países da chamada raça branca se auto-atribuíram essa espécie de representatividade divina.[2]

No mesmo artigo, reproduzi o discurso do líder protestante Nathaniel Emmons, que enviava missionários americanos ao mundo, na tentativa não somente de evangelizar, mas de contribuir diretamente no suposto “progresso” global:

“Deveremos, num curto período de tempo, estabelecer posse e domínio de todo o mundo ocidental. Parece ser o desígnio da Providência diminuir as outras nações, elevando e fortalecendo a nossa… Assim, há grandes razões para se crer que Deus está por transferir o império do mundo da Europa para a América, onde ele plantou um povo especial… Este provavelmente é o último povo especial que Ele quis formar, e o último grande império que Ele quis erigir, antes que os reinos deste mundo sejam absorvidos pelo Reino de Cristo.[3]

Há pelo menos dois motivos óbvios que levam Romney a ressucitar esse tipo de discurso. O primeiro seria simplesmente uma forma de contraposição à tendência e ao estilo de converno de Barack Obama. O presidente negro americano busca tornar-se uma referência global, e o faz através do diálogo, com truculência incomparável menor se considerarmos seu predecessor, George W. Bush. A metodologia de Obama, no entanto, é lenta e não pressupõe resultados avassaladores como os placares dos esportes preferidos pelos americanos, que sempre reproduzem resultados plurais. Eis uma possível razão pela qual o futebol não faz tantos adeptos na América: é pouca pontuação em muito tempo! Portanto, o que o candidato pode oferecer ao povo americano é uma postura que leve os Estados Unidos a reassumir o papel moral de líder global, ainda que de forma abusiva e menos negocial.

Em segundo lugar, é absolutamente mentirosa qualquer afirmação em torno do fato de que a crise econômica americana de 2008 tenha sido superada. Basta ter algum contato com a economia do país para saber. O êxodo de estrangeiros que trabalham por lá nunca foi tão grande. A especulação imobiliária tenta reagir, mas ainda sem sucesso. Levar o povo americano a mentalizar sua posição de ponta é uma estratégia que pode reforçar a suposta “culpa” de Obama quanto ao caos financeiro, e ainda fornecer a esperança de que tudo possa ser revertido. É genial.

No primeiro artigo, fui taxado por muitos de anti-americano. Minha relação com os americanos é a melhor possível. Portanto, repudio esse rótulo. Simplesmente, não acredito na hegemonia americana, e creio que estão, sim, em pé de igualdade com algumas outras nações do mundo, e que lidar honestamente com essa situação seja talvez o que falta para que tenhamos paz global.

No mais, God bless America!

Mário Freitas é missionário e trabalha com americanos há muitos anos, pelo bom crescimento do Reino. Alguns de seus melhores amigos são da terra do Tio Sam!


[1] BOSCH, David J. Missão Transformadora: Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão. São Leopoldo: Sinodal, 2002, p.322-324.

[3] Hutchison, William. Errand to the World – American Protestant Thought and Foreign Missions. Chicago: The University of Chicago Press, 1993. p.61.

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Uma resposta to “O IMPÉRIO CONTRA-ATACA”

  1. Ivana de Castro outubro 8, 2011 às 11:04 am #

    Anti-americanismo? Não. Anti-estupidez. Muito bom meu bom pastor… Visão!!!! Abraço.

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