11 DE SETEMBRO – O QUE MUDOU PARA AS MISSÕES?

12 set

10 MUDANÇAS NA ESFERA MISSIOLÓGICA GLOBAL APÓS O MAIOR ATENTADO TERRORISTA DA HISTÓRIA 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há exatos 10 anos atrás ocorreu a tragédia que mudou a história contemporânea. Duas aeronaves dominadas por terroristas atingiram, com diferença de poucos minutos, as torres gêmeas do World Trade Center, símbolo do capitalismo americano. O atentado foi assumido pela organização Al Qaeda na pessoa de seu maior articulador, aquele que se tornaria a maior ameaça à paz mundial em tão pouco tempo. O mundo era introduzido a Osama Bin Laden.

            Apesar de sua loucura, Bin Laden impressionou por sua sagacidade, sua veemência e seu poder de influência. Todos os lugares do mundo passaram a viver sob sua direta ameaça. O verdadeiro sonho de Bin Laden, dizem alguns estudiosos, era trazer os americanos para combater dentro dos territórios árabes. Ele conseguiu. E fez com que a guerra fosse extremamente desgastante para os Estados Unidos.

            De acordo com a revista The Economist desta semana, o custo da guerra contra o terror superou a quantia de 4 trilhões de dólares para os cofres americanos. Sem contar todos os transtornos humanos e logísticos envolvidos. Cerca de 137 mil civis foram mortos no Afeganistão, Iraque e Paquistão. Morreram também 6000 soldados americanos, e mais de 7.8 milhões de pessoas desses países assumiram a condição de refugiados. Tudo isso a partir da mente de um homem, um somente.

            Em se tratando das missões globais, muitas mudanças ocorreram. Na verdade, foram transformações que impactaram o mundo em todas as suas esferas, mas que afetam diretamente a igreja em sua natureza missiológica. Seguem abaixo alguns pensamentos.

 

1. A receptividade pelo evangelho cresceu na América

            Esse foi um dos mais rápidos efeitos do 11/9. Na semana após a tragédia, igrejas e ministérios de toda a América montaram suas prayer stations  (estações de oração) em Nova York, Washington DC e outras metrópoles, visando atender os parentes das vítimas e os mais desesperados. As igrejas lotaram nos domingos subseqüentes. O país estava em pânico, e a fé foi despertada.

            Isso ocorreu em outras partes do mundo. Mesmo no Brasil, embora não tenhamos um histórico de envolvimento em guerras, nem alimentemos inimizade ou conflito com outras nações, houve campanhas, reuniões e correntes de oração em várias partes do território nacional. Era o mundo receoso, acuado pelo terror.

 

2. As especulações escatológicas desesperaram a igreja ocidental

            Por conta dos efeitos emocionais do atentado, surgiram profetas de todos os jeitos e para todos os gostos, atraindo os desesperados e supostamente preparando os cristãos para os tempos do fim. Alguns diziam que as torres gêmeas correspondiam a dois chifres de carneiro atingidos por um bode voador que vinha do oeste, segundo o texto do profeta Daniel (8:1-7). Outros usavam as evidências de Mateus 24 e do Apocalipse para referir-se ao advento do fim do mundo. A igreja buscava respostas.

            Missiologicamente, entende-se que há um pressuposto de alcance evangelístico relacionado ao fim dos tempos. Mateus 24:14 afirma que o fim virá quando todas as nações (ethné) tiverem ouvido do evangelho. A partir de 11 de setembro, a comunidade missionária ganhou espaço junto à igreja global para despertar e preparar os cristãos para essa obra. Passou a haver maior fervor em torno das missões, ainda que em função do medo do fim.

 

3. A necessidade do preparo missiológico específico aumentou

            Com o episódio de 11/9, vários fatores mudaram no que tange ao treinamento missiológico. A missão aos muçulmanos é vista com especificidade muito maior que antes, e treinamentos muito específicos passam a ser requeridos. Há disciplinas acadêmicas direcionadas e intencionais sobre a questão islâmica, o idioma árabe e a evangelização a partir do Corão, e isso em quase todos os centros de missiologia da América e Europa. Quase nenhuma organização enviaria ao mundo árabe um missionário que contasse tao somente com o treinamento teológico e missiológico geral.

 

4. O reconhecimento da religião como o centro dos problemas mundiais

            Em 1996, o professor de Harvard Samuel Huntington publicou o livro The Clash of Civilizations (Touchstone Books). Uma marca registrada de seu pensamento era a idéia de que o declínio do império ocidental ocorreria, e isso se daria por conta de questões religiosas. Até ler o referido autor, eu mesmo pensava que o maior potencial de guerra do globo estaria na Ásia, entre a China e Taiwan, por exemplo, e isso por questões político-geográficas. Talvez a Kashemira, entre a Índia e Paquistão, embora esse último conflito tenha também fundamentação religiosa.

            Huntington foi questionado na época, mas após 11 de setembro de 2001 sua voz passou a ser considerada “profética”. Os maiores conflitos do mundo estão diretamente ligados à fé, e 11 de setembro foi a consumação dessa idéia.

 

5. A política externa mudou radicalmente

            Muitos concordam que o crescimento econômico e comercial dos novos países emergentes, como China, Rússia, Índia, África do Sul e Brasil, não ocorreu simplesmente por mérito das próprias nações referidas, mas tem relação direta com o declínio do império americano. Alguns dizem o mesmo acerca da crise econômica mundial que atingiu seu ápice em 2008, e até hoje mantém pressão sobre a economia ocidental.

            Para muitos, o declínio americano teve data de início: 11 de setembro de 2011. É bem verdade que muitos outros fatores estão envolvidos quando falamos da nova política e economia mundiais. Mas Bin Laden conseguiu “meter o dedo” no dinheiro e na ordem ocidentais, e o fez radicalmente. Mas o que isso terá a ver com a obra missionária?

 

6. A condição de envio diminuiu entre as igrejas ocidentais

            Sim, esse é o sintoma mais direto sobre a obra missionária, em se tratando das limitações econômicas pós 11/9. Vários missionários voltaram dos campos. Organizações missionárias tiveram de fechar projetos. Recentemente, fomos procurados por uma grande agência americana querendo que assumíssemos um hospital no Sudão, pois não tinham condições de manter as responsabilidades financeiras mensais.

            Com isso, talvez haja um bom aspecto: ressurge a perspectiva dos missionários fazedores de tendas. Obreiros que tenham sustento no próprio campo, ao chegarem às diferentes nações em condição profissional, não somente aliviam financeiramente a igreja enviadora como não se sujeitam aos efeitos da crise. Essa forma de fazer missões volta a estar em voga.

 

7. Instaurou-se a islamofobia declarada

            Até 11 de setembro de 2001, os muçulmanos eram um povo desconhecido para a maioria dos ocidentais. Por suas roupas e costumes, talvez fossem vistos como um povo diferente, até “esquisito”. Depois desse dia, todo árabe passou a ser um potencial homem bomba, e passou-se a acreditar que todos os países do Oriente Médio conspiravam pelo fim dos Estados Unidos e do Ocidente.

            Logo após o ocorrido, lembro-me que vim de Hong Kong (onde morava em 2001) ao Brasil, num vôo da Japan Airlines via Los Angeles. Ainda em Hong Kong, foi solicitado pela funcionária da companhia aérea que uma senhora muçulmana retirasse a burka (roupa típica islâmica) e vestisse “trajes ocidentais”, para que não tivesse problemas na América. Ela se recusou, chorou, e optou por correr o risco. Não acompanhei o resultado. Mas soube, a partir daquele diz, que o preconceito contra o islã estava inaugurado.

 

8. A receptividade pelo evangelho em países árabes diminuiu

            Na verdade, o que diminuiu foi a receptividade ao estrangeiro, ao não árabe. Sendo ainda mais específico, podemos afirmar que o que se instalou foi um anti-americanismo severo em todo o mundo árabe. Era uma reação, uma resposta ao preconceito global sofrido pelos islâmicos. Um amigo inglês, caucasiano, foi afrontado e cuspido nas ruas do Marrocos, enquanto tirava fotos. “Você não é bem vindo aqui!”, ele ouviu.

            Especificamente quanto à igreja, a verdade é ainda mais triste. Um amigo iraquiano confessou a dificuldade que tem sido anunciar o evangelho e conservar a igreja no país sem Saddam Hussein. Parece brincadeira, mas não é. “Saddam era uma bênção”, disse-me o piedoso líder local. Na época de Saddam, havia controle e rigor, mas a igreja era respeitada se seguisse os parâmetros impostos pelo governo. Hoje, os iraquianos relacionam a fé cristã ao modus operandi dos soldados estrangeiros que dominaram o país. E o comportamento desses nem sempre era dos mais favoráveis. O testemunho foi prejudicado, e a igreja local passou a sofrer.

 

9. A perseguição religiosa aumentou

            O resultado direto disso é a perseguição. Vale notar que a perseguição contra estrangeiros não é estritamente religiosa. É comum ouvir sobre jornalistas que são presos, por exemplo, simplesmente em projetos de pressão política. Mas a igreja local sofre arduamente.

            Em países supostamente pacíficos para o evangelho, como a Jordânia, a perseguição passou a fazer parte do cotidiano dos cristãos. O argumento dos muçulmanos, muitas vezes xiitas que não representam as autoridades locais, é que um árabe não pode aderir à fé daqueles que os oprimem, a saber, os (cristãos) ocidentais.

 

10. As viagens internacionais se tornaram mais complicadas

            Logisticamente, quem viaja pelo mundo árabe e por outras partes do globo sabe do que estou falando. Não era necessário tirar os sapatos e o laptop da mochila antes do Raio X dos aeroportos. Agora é, quase no mundo todo. Sem contar a exacerbada preocupação com liquidos, oriunda do terrorismo químico pós 11 de setembro. Mas isso é o que menos importa. O pior é a humilhação à qual muitos são submetidos por conta dos preconceitos e do medo.

            Passei por Los Angeles dia 13 de setembro, logo que abriram o aeroporto após o atentado de 2001. Como disse acima, estava em trânsito rumo ao Brasil. Na fila do controle de passaporte, fui conduzido a uma sala, sozinho, onde fiquei sem água e sem banheiro por 9 horas. Perguntei à oficial que me conduziu o que estaria acontecendo, ao que ela respondeu: “No questions, sir”. Jamais soube o motivo.

            Perdi meu vôo de conexão. Ao fim do tempo de “cárcere”, um oficial escoltou-me até a sala de embarque de um outro vôo que haviam remarcado. Na época foi revoltante. Hoje, entendo a tensão, as incertezas e a confusão comuns ao momento.

            O problema é que esse tipo de coisa ainda acontece, pois 11 de setembro trouxe um fantasma de terror principalmente no ambiente dos aeroportos e controles de passaporte. Hoje, é mais difícil conseguir visto para grande parte dos países. O visto missionário passou a ser visto com desconfiança. Os missionários também são prejudicados diretamente pelo terror.

 

Concluindo

            O mundo nunca mais foi o mesmo depois de 11 de setembro de 2001. Isso é também verdade no que tange à igreja e às missões. Mas isso não pode nos intimidar, a obra precisa continuar. Muitas portas se fecharam, e mesmo depois de morto Bin Laden ainda “bombardeia”. Mas outras portas se abrem, e Deus tem feito com que muita gente se apaixone pelos muçulmanos e pela obra missionária. A igreja também não é a mesma depois de 11/9. Que o terror seja apagado pelo amor do evangelho. A Ele a glória!

Mário Freitas é pastor e sonha em abraçar um terrorista. 

 

 

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