PERIGOS ESPIRITUAIS DO DESCONTENTAMENTO

22 ago

“Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp.4:11)

            Estive na África no último mês de julho. Um dos países que visitei foi Burundi, que por muitos anos foi considerada a nação mais pobre da face terrestre. A pobreza de fato é notória. Mas a igreja local é vibrante e triunfante, apesar das circunstâncias.

Em conversa com o Pr. Ephraim Manirakiza, influente líder metodista no país, ele me disse uma frase que até hoje está presa em minha alma, e da qual eu não sei se desejo libertar-me. Ao ser perguntado sobre a pobreza do Burundi, ele afirmou:

            “Não gostamos de ser o país mais pobre do mundo. Mas tememos nos tornar uma igreja rica, e nos esquecermos de Deus”.

Essa afirmação, somada a tudo o que vi naqueles dias, e a tudo o que tenho visto no Haiti nos últimos 19 meses, fez-me pensar sobre o problema do descontentamento. Vez por outra, vejo-me descontente com o que sou, com o que possuo e com o que já conquistei. Mas o desafio da Bíblia, e desses heróis contemporâneos da igreja sofredora, é que estejamos contentes sempre, independente das circunstâncias.

Ao desenvolver meus pensamentos sobre o tema, pensei em seis pontos de reflexão sobre o descontentamento, visto que este tanto caracteriza nossa caminhada cristã no ocidente. Seguem abaixo.

 

1.    O descontentamento é filho da incredulidade

Percebo que aqueles que correm vorazmente atrás de suas metas obstinadas, nunca dando-se por satisfeitos com o que conseguem lograr, o fazem porque não confiam em Deus. O descontente não crê que, se trabalhar um pouco menos para passar mais tempo com os filhos, Deus proverá e sustentará sua casa. Ele crê que as coisas somente acontecerão como resultado direto de seu esforço pessoal. Isso é uma marca da incredulidade.

O descontente não crê que é possível reagendar e remanejar seus horários, pois não está certo de que Deus o saciará. Um homem de fé não é aquele que vive numa busca desenfreada pelo que o mundo denomina prosperidade. Pelo contrário, trata-se daquele que crê que Deus cuidará dele e de sua família, multiplicando e tornando suficiente o que já se tem. Ele trabalha e se esforça, mas sabe que o que mais vale é o fato de que Deus trabalha por Ele (Isaías 64:4).

 

2.    O descontentamento disfarça-se de empreendedorismo e confunde-se com a mediocridade

Para muitos homens e mulheres de nossa geração, o descontentamento é uma virtude. Isso se dá quando o consideramos como uma forma de empreendedorismo. Aprendemos a admirar os obcecados e obstinados da nossa geração, como se o seu desassossego fosse algo a se aspirar. O descontente é admirado quando diz que há anos não tira férias, que não se lembra da data do aniversário dos filhos, que não consegue participar dos ministérios da igreja por falta de tempo. Na verdade, os verdadeiros empreendedores satisfazem-se com cada etapa da caminhada, e não são marcados pelo descontentamento.

Por outro lado, é bem provável que o meu discurso em torno do contentamento seja taxado por muitos como mediocridade. A linguagem de prosperidade é tão intrínseca na igreja brasileira que qualquer orientação a que se pise no freio e se repense valores poderá ser interpretada como fruto de uma “mente pequena”.

Sou contra a “teologia da mediocridade”, esse pensamento contra o bem-estar e o enriquecimento do cristão. Não há evidência bíblica contra a riqueza, e sim contra a postura de mergulhar o coração em busca de riquezas. Creio inclusive que a prosperidade é um conceito bíblico (Js. 1:8, Jr. 29:11), quando interpretado corretamente. Entendo que os filhos de Deus sejam motivados biblicamente e vocacionados a caminhar para a frente, não para regredir. Mas não concordo que o descontentamento obstinado em torno da prosperidade seja o desejo de Deus para nós.

 

3.    O descontentamento faz com que nos contentemos com a felicidade condicional e pontual

O descontente se contenta, mas o faz eventualmente. Ele precisa que as coisas dêem certo para contentar-se. Sua alegria é circunstancial, condicionada a alguns estímulos positivos da história. Ele celebra porque foi promovido. Celebra e louva a Deus quando fecha um bom negócio. Celebra porque o filho se formou na universidade. Mas esse não é o modelo bíblico de adoração. Nossa adoração não pode ser meramente eventual.

Nosso coração deve ser movido pelo “ainda que” do profeta Habacuque: “Ainda que a figueira não floresça”, me alegrarei (Hc. 3:17-18). Ainda que eu entre no cheque especial, estarei contente. Ainda que eu não consiga tirar as férias dos meus sonhos, estarei contente. Em toda e qualquer situação.

 

4.    O descontentamento é inimigo da generosidade

Esse é outro ponto óbvio: se o indivíduo não pensa ter suficiente, ele naturalmente não pensa que pode doar. Como ainda não adquiriu tudo o que quer, não tem como pensar em ajudar outros. O descontente não é generoso: em geral, quando doa, está cumprindo tabus sociais ou religiosos. O indivíduo pode ser até um dizimista fiel, mas se fizer com descontentamento estará fazendo sem generosidade e com pouco coração.

Aqui, alguém pode parar e perguntar: mas se sou dizimista, e dou dinheiro aos pobres, tem como ainda assim eu ser um descontente? Notemos que quase todas as empresas do nosso tempmo possuem programas de responsabilidade social. Grandes multinacionais investem em projetos de treinamento de jovens, creches, orfanatos, projetos ambientais, etc. Não significa que amem essas causas. Primeiro, são beneficiados em termos tributários quando assumem sua responsabilidade social. Segundo, investem na imagem da empresa em frente à mídia e a sociedade. O descontente pode até doar, mas ele o fará nesses moldes. Não por convicção ou amor, mas com outras motivações.

 

5.    O descontentamento material é fruto de contentamento espiritual

Curiosamente, aqueles que vivem perturbados acerca do que precisam ajuntar não se preocupam na mesma proporção com sua vida espiritual. Se desesperam quando fecham o ano no vermelho, mas não lhes incomoda em nada fechar vários anos sem ver conversões ou vidas transformadas em seu local de trabalho.

O contrário também costuma ser verdade: pessoas que são dotadas de um santo descontentamento espiritual, e que vivem buscando mais de Deus, geralmente se satisfazem com o que Deus lhes dá. Na verdade, nem sempre lhes sobra tempo para se desesperarem com os “negócios dessa vida” (2 Tm. 2:4).

 

6.    O descontentamento rouba-nos o foco daquilo que realmente importa

Em Lucas 12:22-34, Jesus trata com os seus discípulos acerca do problema da ansiedade. Uma das razões pelas quais nos quedamos ansiosos e, em geral, também descontentes, é o fato de estarmos sempre focados nas coisas materiais. Portanto, Ele deixa a dica (que na verdade deveria ser encarada por nós como mandamento!): Façam para vocês bolsas que não se gastem com o tempo, um tesouro nos céus que não se acabe, onde ladrão algum chega perto e nenhuma traça destrói (v.33b).

Obviamente que esse último ponto é o resumo de todos os outros. É insensato que nos desgastemos tanto por projetos que vão passar, e nos demos tão pouco pelos projetos eternos. Sejamos descontentes quanto ao que não desgasta. Nas marcantes palavras de Jim Elliot, “Não é tolo o que dá o que não pode guardar, para ganhar o que não pode perder”.

 

Concluindo, noto que tenho perdido muito tempo direcionado pelo descontentamento em minha vida. Se eu parar para pensar, perceberei que a razão de meus equívocos, desafetos e insanidades é o fato de nem sempre contentar-me. Quero estar descontente, mas com minha própria vida espiritual. Quero saber que, por mais perto de Deus que eu consiga chegar, jamais será perto o suficiente. Que Deus tenha misericórdia de nós!

Mário Freitas é pastor, pela graça, e por ela somente. É descontente, iracundo, miserável pecador. E crê que, desde o tempo de Balaão, Deus usa jumentos. 

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5 Respostas to “PERIGOS ESPIRITUAIS DO DESCONTENTAMENTO”

  1. Robson Gomes agosto 22, 2011 às 7:51 pm #

    É isso ai, meu amigo Mário! Boa palavra.
    Ai só nos resta descansar na graça bendita de Jesus, e viver contentes e cheios de gratidão.
    Robinho

  2. Valdirene Hardt Gondim agosto 27, 2011 às 10:03 pm #

    Texto edificante demais…
    O interessante é que Deus tem falado ao meu coração justamente nesse sentido: em orar pedindo que Ele direcione todo meu inconformismo…
    E tenho sentido, pela Sua infinita misericórdia, o quanto isso tem me feito reconhecer os próprios erros e a total dependência dEle para tudo, mas, principalmente, para alcançar “os campos brancos para a ceifa”…

  3. Eliezio janeiro 29, 2012 às 5:29 pm #

    Oi meu nome e eliezio tenho 21Anos sou casado eu tou fumando múito qro para com isso

  4. Roberta Candido janeiro 17, 2013 às 1:48 am #

    Lindo texto….extraí algumas partes para uso própriooo…tenho vivido essa experiência de estar descontente sem causa plausível …hoje lendo uma palavra da Ana Paula Valadão sobre a facilidade que o inimigo tem de gerar em nós esse descontentamento…e que deveriamos ser como Paulo …viver contentes em qualquer circunstância…comecei a pesquizar sobrevesse mal que nós assola…viva o Contentamento!!!precisa ser apreendido….não esta em nós!!!obrigado pastor pelas palavras…abraços

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