POR QUE FAZER MISSÕES TRANSCULTURAIS?

9 ago

“POIS A TERRA TERÁ CONHECIMENTO DA GLÓRIA DO SENHOR COMO AS ÁGUAS COBREM O MAR” (HABACUQUE 2:14)

A pergunta que fornece título a esse artigo me tem sido feita, na prática, por várias pessoas, em vários lugares onde passo. Na verdade, a questão em geral tem sido: por que fazer missões e apoiar a igreja global, se temos tantas preocupações ainda no Brasil? De fato, o Brasil é um país amplo, predominantemente católico romano, que tem estado distante de Deus e que, justamente por isso, constitui um desafio evangelístico por si só.

Eu poderia responder a esta pergunta argumentando que as igrejas no Brasil são fortes e autônomas, e que sempre haverá alguém para fazer por aqui o que precisa ser feito. Mas esse argumento não seria de todo verdadeiro. O desafio do Brasil continua avassalador, e a mão de obra para essa guerra nunca será demais.

Na verdade, há explicações melhores e mais próximas da Bíblia. Seguem abaixo 3 razões pelas quais eu, pessoalmente, me concentro em missões transculturais, embora respeite, invista e apóie toda e qualquer empreitada missionária no meu país. Espero que minhas razões sejam também as suas, e que você seja usado por Deus para anunciá-lo, de uma forma ou de outra, entre todos os povos.

1. RAZÃO BÍBLICA 

Biblicamente, a missão da igreja não possui uma perspectiva geográfica, mas étnico-contextual, fundamentada na demanda geral de que todo homem precisa ouvir o evangelho.

A Bíblia ordena que preguemos a todos os povos. Meu compromisso, portanto, não deve ser com um país, mas com as nações (ethné, no grego) em todos os países (Mt. 28:18-20). Uma etnia é um grupo de pessoas que compartilha a mesma língua, história e cultura. O mundo é composto de mais de 24 mil grupos étnicos, dos quais mais de 1/3 não são evangelizados. Alguns deles estão no Brasil. Por isso considera-se transcultural e trans-étnica a missão realizada por missionários em alguns contextos do nosso próprio país, como entre os índios da Amazônia, por exemplo.

A compreensão de tribos e etnias pode ser alcançada também à luz do simples conceito de grupos. Há “tribos” diferentes a serem alcançadas nas diversas capitais do Brasil. Confesso que há grupos no Brasil que me preocupam de uma forma especial. É o caso dos adeptos das romarias do Nordeste, dos Ribeirinhos da Amazônia, entre outros.

Levar em conta os diversos grupos étnicos é um papel inegociável da igreja no que tange à sua participação no processo de volta de Cristo (Mt. 24:14). E é também bíblica a idéia da simultaneidade da missão: devemos cumpri-la em Jerusalém e nos confins da Terra, ao mesmo tempo e com a mesma paixão (At.1:8!).

 

2. RAZÃO VOCACIONAL

 Ao longo da história, Deus tem implantado Seu Reino entre os povos através de vocações e oportunidades específicas.

Não teria sentido afirmar a um jovem que alega ser chamado para fazer missões na Índia que ele não deve ir, simplesmente porque há muito o que fazer no Brasil. Atestando-se a autenticidade de seu chamado, tal postura estaria questionando o chamado de Deus. Ou o jovem mente ao dizer-se chamado, ou Deus errou de estratégia. Qual das afirmações seria mais pecaminosa?

Claro que a igreja deve tomar os devidos cuidados no que tange à preparação e ao encaminhamento dos candidatos às missões. Vocações devem ser provadas, atestadas e confirmadas. As juntas de missões sérias somente receberão candidatos que tenham sido enviados por suas igrejas após passarem por longos e criteriosos processos. O que não se pode fazer, no entanto, é descartar o fato de que Deus ainda chama pessoas específica para tarefas específicas em lugares específicos.

Toda a igreja de Cristo é chamada para missões, e todas as comunidades locais devem ser esforçar-se pela implantação do Reino no local onde Deus as plantou. Não faz sentido que a igreja brasileira seja bênção no campo transcultural, mas irrelevante no Brasil. No entanto, enquanto Deus desperta sua igreja aqui, Deus promove chamados específicos para que jovens, adolescentes, homens, mulheres e famílias inteiras se dediquem às missões além das nossas fronteiras.

Duvidar da autenticidade do chamado transcultural específico pode ser um sintoma de incredulidade. Muitos se concentram exclusivamente no desafio do Brasil por não crerem que Deus sustentará ao mesmo tempo todas as obras e todas as missões, em todos os lugares!

3. RAZÃO HISTÓRICA

A negação da transculturalidade e da amplitude geográfica da missão da igreja consiste numa injustiça histórica considerando a forma como o evangelho chegou até nós.

Pense em como o evangelho chegou ao Brasil. Deus usou missionários estrangeiros para trazerem a Boa Nova às terras tupiniquins. No entanto, esses missionários vieram de países onde o trabalho evangelístico ainda era inconcluso. Ainda havia muito o que fazer em seus países de origem. Na verdade, foram muito questionados por isso.

Quando Ashbell Green Simonton veio ao Brasil (1859) e fundou a Igreja Presbiteriana, ele abdicou de fazer missões entre os índios nativos dos Estados Unidos, o que era o foco geral das sociedades bíblicas de sua época. Certamente, foi questionado por isso. Mas Deus colocou o Brasil em seu coração, bem como em muitos outros corações que nos serviram com a verdade do Evangelho. A Deus toda a glória!

 

CONCLUSÃO

Há muito o que fazer no Brasil. A organização que dirijo tem seu foco na igreja sofredora (www.maisnomundo.org), e já ajudamos financeiramente e fisicamente igrejas em situação pós-catástrofe no Rio de Janeiro. Hoje buscamos parcerias no nordeste, reconhecendo que ali há casos de assédio e perseguição religiosa contra pastores e evangélicos em geral. Portanto, o Brasil é ainda campo missionário da igreja nacional.

Mas há elementos bíblicos, históricos, estratégicos e vocacionais que homologam a participação da igreja brasileira em tudo quanto Deus está fazendo nos quatro cantos da Terra. Que Deus nos dê visão global e ampla acerca da Sua vontade. Que Ele esteja!

Mário Freitas

Anúncios

4 Respostas to “POR QUE FAZER MISSÕES TRANSCULTURAIS?”

  1. Anderson Moraes agosto 9, 2011 às 12:13 pm #

    Mário, ao ser perguntado, sugiro que responda com outra pergunta, no sentido exatamente oposto: “por que priorizar o Brasil?”. A razão para isso já foi explorada por você. Em tempos nos quais as pessoas soluçam por uma suposta “institucionalização do pecado”, cabe lhes lembrar que estão escoradas há séculos em instituições que só o são em razão da Queda. Dificilmente as pessoas se dão conta, mas estados são uma ficção que faz pouco sentido. Um nasce a oeste do rio Paraná e é paraguaio; outro nasce a leste e é brasileiro. Qual a lógica de permitir que um critério desse defina a vida de uma pessoa. Estou cada vez mais convencido de que fronteiras só se fazem necessárias em razão da Queda, o que me faz pensar em países e postos alfandegários como um exemplo muito melhor de institucionalização do pecado, mas que, contudo, não são notados como tal. Países não existem, o que existe é gente.

  2. Paulo Sergio Wegner agosto 9, 2011 às 12:33 pm #

    Bom dia.
    No seu post vc diz que procura parceiros no nordeste, nós fazemos expedições no sertão do Piauí.
    Conheça um pouco de nosso trabalho no site:
    http://www.aguavivaparaosertao.com.br
    Parabéns pelo belíssiomo texto!

  3. Anderson Moraes agosto 10, 2011 às 11:54 am #

    Mário, ao ser perguntado, sugiro que responda com outra pergunta, no sentido exatamente oposto: “por que priorizar o Brasil?”. A razão para isso já foi explorada por você. Em tempos nos quais as pessoas soluçam por uma suposta “institucionalização do pecado”, cabe lhes lembrar que estão escoradas há séculos em instituições que só o são em razão da Queda. Dificilmente as pessoas se dão conta, mas estados são uma ficção que faz pouco sentido. Um nasce a oeste do rio Paraná e é paraguaio; outro nasce a leste e é brasileiro. Qual a lógica de permitir que um critério desse defina a vida de uma pessoa? Estou cada vez mais convencido de que fronteiras só se fazem necessárias em razão da Queda, o que me faz pensar em países e postos alfandegários como um exemplo muito melhor de institucionalização do pecado, mas que, contudo, não são notados como tal. Países não existem, o que existe é gente.

  4. Sammis Reachers agosto 11, 2011 às 9:56 pm #

    Excelente e oportuno texto, Mário. Estou republicando-o no blog da União de Blogueiros Evangélicos, para que muitos possam refletir. O tempo é hoje!

    http://www.ubeblogs.net/2011/08/por-que-fazer-missoes-transculturais.html

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: