BREVES PENSAMENTOS SOBRE A ESPIRITUALIDADE CLÁSSICA

21 maio

Tenho sido procurado por alguns leitores, amigos e irmãos, principalmente os que conhecem meus hábitos e preferências devocionais, acerca da espiritualidade clássica. Alguns perguntam se esta não é uma prática católica monástica ou mística que a igreja protestante vem importando. Outros querem saber que tipo de leitura devem fazer para conhecer o pensamento e a espiritualidade dos pais da igreja. Foi por isso que decidi escrever esse breve artigo.

Ao falarmos em Espiritualidade Clássica, em geral, referimo-nos às direções espirituais herdadas da influência de alguns homens e mulheres entre a era da igreja primitiva e a reforma protestante. A tradição cristã reconhece esses pais da igreja e pré-reformadores, pessoas que não se contentaram com o glamour da igreja romana, alguns deles fugindo para o deserto e iniciando caminhadas que mais adiante originariam o movimento monástico.

A Espiritualidade clássica propõe um estilo de vida de devoção e busca, em torno da contemplação e do silêncio. Como missionário e missiólogo, convivo com a tendência real de ser consumido pelo ativismo e por algum tipo de “teologia da produtividade”. Quem me julga “hiperativo ministerialmente” não imagina o monstro que eu poderia ser se eu não praticasse a espiritualidade clássica. A contemplação é para mim, portanto, a espiritualidade do equilíbrio.  Em tempos de muito falar, ouvir a Deus é vital.

OS PAIS DO DESERTO

Quando Constantino efetivou o cristianismo como religião oficial do Império Romano, a igreja tomou vultos de proeminência e galanteio que pouco atraíram os homens e mulheres que buscavam a Deus com singeleza e devoção. Por conta disso, iniciou-se um projeto de distanciamento da igreja e do glamour. Alguns escolheram partir para o deserto. Um dos primeiros a partir foi Santo Antão (251-356 DC), que é considerado por muitos o pai da vida monástica.

Certa vez, questionaram Antão acerca de sua opção pelo deserto. Perguntaram se ele fugira por ser santo demais para permanecer na igreja. Ele calmamente e humildemente contrariou a tese, dizendo: “Não vim para o deserto porque sou bom demais para a igreja. Vim para que a igreja não tenha que conviver com meus demônios”.

Outros nomes importantes desse tempo são Macário, o Grande (300-391 DC); João Crisóstomo (349-407 DC); João Cassiano (370-435 DC) e Atanásio de Alexandria (295-373 DC)[1]. Esses são alguns dos que possuem suas vidas e pensamentos registrados em biografias. A partir deles, a tradição cristã herdou as práticas devocionais contemplativas e seus provérbios, chamados apoftegmas.

OS APOFTEGMAS

Os apoftegmas são frases e citações deixadas pelos pais do deserto, que até hoje servem de orientadores da espiritualidade de muitos. Seus pensamentos demonstram mais preocupação com a vida e com o coração do que com qualquer tipo de coerência teológica. Seguem alguns dos meus apoftegmas preferidos.

“Retirem-se as tentações e ninguém será salvo” (Evágrio Pôntico).

“O homem que permanece de pé quando se arrepende não guardou o mandamento” (Teodoro de Pherme).

“Quem não for edificado pelo meu silêncio, não será edificado pela minha fala” (Padre Teófilo, o Arcebispo).

“Pusemos de um lado a carga leve da autocrítica, e carregamo-nos do grande peso que é a auto-justificação” (João, o Anão).

“As alturas da humildade são grandes, e também as profundezas da vanglória” (Padre Isidoro de Pelúzia).

“O início do mal é não ouvir” (Padre Poemen).

“Então você deseja abraçar esta vida de solidão e buscar as bênçãos da quietude? Então, abandone os cuidados do mundo, os principados e poderes que lhes dizem respeito; livre-se dos apegos às coisas materiais, da dominação das paixões e desejos de modo que como um estranho a tudo isso você possa atingir a verdadeira serenidade. Pois somente se elevando sobre estas coisas pode o homem atingir a vida de quietude.” (Evágrio Pôntico)

 

A LITERATURA DISPONÍVEL

Há extensa literatura em língua portuguesa sobre os pais do deserto e a espiritualidade clássica. Entre os escritores católicos que resgatam a patrística e a contemplação, eu recomendo Henri Nouwen, Anselm Grün e Thomas Merton.

Entre os protestantes, o Seminário Regent College no Canadá é reconhecidamente um grande núcleo do pensamento da espiritualidade. Nomes influentes como James Houston e Eugene Peterson passaram por lá e influenciaram a teologia pastoral contemporânea.

Segue abaixo uma lista de sugestões bibliográficas que poderão servir de orientação e motivação para iniciantes na espiritualidade clássica:

–       Grün, Anselm. O céu começa em você: a sabedoria dos padres do deserto para hoje. Ed. Vozes.

–       Grün, Anselm. As exigências do silêncio. Ed. Vozes

–       Merton, Thomas. Homem algum é uma ilha. Ed. Verus

–       Merton, Thomas. A Sabedoria do deserto. Ed. Martins Fontes

–       Keating, Thomas. Convite ao amor: O caminho da contemplação Cristã. Ed. Loyola

–       Keating, Thomas. Intimidade com Deus. Ed. Paulus

–       Nouwen, Henri. A espiritualidade do deserto e o ministério contemporâneo. Ed. Loyola

–       Nouwen, Henri. Oração: o que é, como se faz. Ed. Loyola

–       Nouwen, Henri. Crescer: os três movimentos. Ed. Paulus

–       Nouwen, Henri. O perfil do líder cristão do século XXI. Ed. Atos

–       Houston, James. Orar com Deus. Ed. ABBA Press

–       Foster, Richard.  Celebração da Disciplina Ed. Vida

Mário Freitas é pastor e missionário da MAIS (www.maisnomundo.org).


[1] Vários desses homens tiveram vital importância na luta contra o arianismo, que era a tendência doutrinária de seu tempo que questionava a divindade de Jesus. Atanásio foi um dos que mais debateu contra essa heresia.

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2 Respostas to “BREVES PENSAMENTOS SOBRE A ESPIRITUALIDADE CLÁSSICA”

  1. hajahope maio 21, 2011 às 3:09 am #

    DEUS seja Louvado por tua preciosa vida. Texto edificante e, de suma importância aos nossos dias.
    Aceitei a sugestão dos livros.
    A Cruz é o preço do meu perdão,
    Haja Hope

  2. Andre Goes maio 21, 2011 às 4:08 pm #

    Simplesmente maravilhoso esse texto! Eu talvez foi um dos que ficaram “enchendo o saco” do Pr. Mário pra escrever pois senti uma necessidade e curiosidade sobre o tema! Através das dicas que o Pr. me passou via twitter (@a6cordas – add me!) comprei algumas literaturas do Anselm Grün, Thomas Merton, e estou “comendo” os livros! Obrigado Pr, obrigado Deus! Abraços!!!

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