A MORTE DE BIN LADEN E O GLOBALISMO AMERICANO

3 maio

Após quase 10 anos de tensões e incertezas, o presidente americano Barack Obama anunciou, na noite passada, a morte do líder terrorista Osama Bin Laden, que assumiu a responsabilidade acerca do atentado de 11 de setembro de 2011. Na ocasião, aviões seqüestrados atingiram as torres gêmeas de Nova York, matando milhares e trazendo o terror a milhões. Era inaugurada uma nova guerra mundial.

Sob o comando do presidente George W. Bush, os americanos invadiram o Afeganistão, e em seguida o Iraque. A guerra contra o terror passou a ser a magna prioridade da bandeira americana. Era a guerra justificada: o bem lutando contra o mal. Chegava-se a articular que se tratasse de uma guerra santa, do povo de Deus contra os pagãos.

Não há o que possa ser dito contra a captura de Bin Laden, ainda que com morte. Ele foi punido por um crime que cometeu. Pode haver debates técnicos acerca da possibilidade de ele ter sido capturado com vida, mas pressupõe-se que tal tentativa aconteceu. O problema, portanto, não está na morte de Bin Laden, e sim no ressurgimento de uma mentalidade norte-americana que justifica suas ações pessoais, ainda que corretas em alguns casos, como representativas do bem maior universal.

Para os americanos, é um dia especial. E deve ser: foi feita justiça em torno de uma ameaça avassaladora. Fizeram o que tinham que fazer. O que questiono aqui é o direito de representar o bem. Os discursos do presidente Obama e da secretária de estado Hilary Clinton confirmam que o ocorrido teria sido um bem para o mundo. A pergunta seria: gozam os americanos desta representatividade global?

Não sou anti-americano. Pelo contrário, considero que em muito eu tenha sido influenciado pelo pensamento americano, como boa parte do mundo. Minha análise aqui é particular referente a esta última conquista de guerra, a saber, a captura com morte do maior líder terrorista do mundo. A mentalidade de que os americanos representam o resto do mundo, e que um ataque aos Estados Unidos simbolizem um crime contra o mundo, não nasceu com Bush nem começou recentemente. Para entender, precisamos analisar o conceito de PROGRESSO oriundo do iluminismo, e o conceito chamado DESTINO MANIFESTO.

A idéia do Progresso

O iluminismo ocidental combina essencialmente duas características basilares, a saber, o empirismo de Bacon e o racionalismo de Descartes. Somados, esses pilares do iluminismo se manifestarão mais tarde num elemento crucial do pensamento ocidental: a crença no progresso.[1]

“Encarava-se agora, com alegria e entusiasmo a possibilidade de percorrer a terra e “descobrir” novos territórios, de ver um novo dia raiar sobre um mundo tenebroso. Com audácia, as nações ocidentais se assenhorearam da terra e introduziram o sistema de colônias. Uma confiança indócil tomou conta dos povos do Ocidente enquanto se preparavam para o futuro. Eles eram os senhores de seu destino – uma crença fomentada, desde a infância, pela história que estudavam. Estavam convencidos de que possuíam tanto a capacidade quanto a vontade de refazer o mundo à sua própria imagem”.[2]

A nação americana é inaugurada sob forte influência iluminista e encarna filosoficamente tais características. O cidadão americano, a partir ainda do século XVII, deseja expandir, e vê-se responsável pelo progresso do mundo. Adentrar o conceito de progresso é extremamente importante para a compreensão da mentalidade norte-americana nos últimos dois séculos, e caracteriza o povo americano hoje.

É com base nessa cadeia conceitual que o mundo vai se adequando ao poderio do pensamento americano. Com suas influências e contribuições, a nação americana foi tornando-se referência entre os povos, uma vez que trazia uma fundamentação de superioridade prática, como se pudesse oferecer respostas efetivas para os problemas das nações.

“O iluminismo… juntamente com os avanços científicos e tecnológicos que se seguiram a ele, colocou o Ocidente em uma posição de vantagem sem paralelo sobre o resto do mundo. De repente, um número limitado de nações possuía “ferramentas” e know-how imensamente superiores aos de outras. O Ocidente pôde, assim, estabelecer-se como senhor do mundo em praticamente todas as áreas”.[3]

O conceito do “Destino Manifesto”

Para que se estabeleça uma análise acurada da maneira como os norte-americanos se relacionaram com o resto do mundo a partir do século XIX, é fundamental que se entenda o conceito denominado Destino Manifesto. Em geral, já dissemos, imperava a premissa da superioridade da cultura ocidental sobre as demais, e um senso de responsabilização do Ocidente pela salvação e progresso no mundo, considerando suas qualidades singulares. Isto se dava no que tange a todas as dimensões da vida e do comportamento, como a economia, a política e a religião. Os americanos existiam para redimir.[4]

“O Destino Manifesto constitui uma idéia característica e particular ao cidadão americano no século XIX. Utilizado pela primeira vez na década de 1840 pelos Democratas, visando a anexação de territórios ainda não integrados ao Estado americano (especialmente os estados do Texas e do Oregon), este conceito remonta a idéia de que os Estados Unidos foram destinados a expandir, inicialmente do Atlântico ao Pacífico, dentro de sua própria extensão continental. Com o tempo, tornou-se um termo histórico padrão para justificar e designar o direito (e mesmo o dever) da nação americana de expandir-se além de seu próprio território, civilizando, defendendo e promovendo a democracia, segundo o seu próprio entendimento do termo, por todo o mundo”.[5]

A proposta é que Deus, em sua inquestionável providência, escolhera as nações do Ocidente para representarem sua causa. Não consistia, em sua origem, numa proposta colonialista, nem era assim percebida ou divulgada. Na verdade, o Destino Manifesto é um produto do nacionalismo, este caracterizado por um vínculo patriótico de absoluta lealdade. A idéia agregou-se rapidamente ao conceito de povo eleito do Antigo Testamento. E não se tratava de uma idéia surgida primeiramente entre os americanos; em algum ponto da história, quase todos os países da chamada raça branca se auto-atribuíram essa espécie de representatividade divina.

“Entre os anglo-saxões, a noção de “destino manifesto” surgiu bem antes do que entre os protestantes continentais. Em seu caso, essa noção encontrava-se profundamente vinculada a expectativas milenaristas; os puritanos acreditavam que a raça anglo-saxônia tinha um mandado divino para conduzir a história a seu final e inaugurar o milênio. Nos Estados Unidos, o etos puritano foi bem mais duradouro e vigoroso do que na metrópole, na Inglaterra. Desde o início, soavam e ecoavam afirmativas de que Deus peneirara um povo inteiro para que pudesse escolher a melhor semente para a Nova Inglaterra”.[6]

O conceito de Destino Manifesto propriamente dito estabeleceu-se na Nova Inglaterra, após a independência em 1776. A partir de 1810, há registro de associações missionárias que tenham tentado envolver na causa missionária não somente pessoas cristãs, mas indivíduos reconhecidos por seu patriotismo. Despertava o senso de excepcionalidade dos americanos. [7]

É nesse contexto que emergem discursos importantes, e que moldaram toda a mentalidade americana para as gerações vindouras. É o caso das palavras de Nathaniel Emmons, presidente da Sociedade Missionária de Massachussets, acerca do papel dos cristãos americanos no além-mares.

“Deveremos, num curto período de tempo, estabelecer posse e domínio de todo o mundo ocidental. Parece ser o desígnio da Providência diminuir as outras nações, elevando e fortalecendo a nossa… Assim, há grandes razões para se crer que Deus está por transferir o império do mundo da Europa para a América, onde ele plantou um povo especial… Este provavelmente é o último povo especial que Ele quis formar, e o último grande império que Ele quis erigir, antes que os reinos deste mundo sejam absorvidos pelo Reino de Cristo.[8]

Bin Laden e o resto do mundo

Quero concluir reiterando que a preocupação dos Estados Unidos, enquanto nação, com a propagação do terror, é genuína e necessária. Considero também que a caçada a Bin Laden, ocorrida nos últimos 10 anos, possui desfecho aparentemente vitorioso e promove a esperança de que todo tipo de manipulação homicida e violenta pode vir a ter fim.

O que questiono aqui é a veemência com que a nação americana considera que a resolução desse problema seja uma bênção para o mundo, e como homologam  a dependência universal de seus movimentos libertários. A frase do presidente Obama – “Com a morte de Osama, o mundo está mais seguro” – expressa isso. Considero questionável que Bin Laden representasse uma ameaça direta às outras nações do mundo. Sua guerra declarada era contra a América. Ainda assim, o problema americano é visto como uma questão global.

Como cristãos do mundo, precisamos ampliar nossas preocupações nesse momento. O romantismo hollywoodiano da captura de Bin Laden não revela o perigo que passa a atormentar a igreja cristã no Oriente Médio. Em alguns desses países, ser cristão significa representar a agenda norte-americana. Nesses tempos, pastores costumam ser torturados e questionados acerca de seu envolvimento ocidental. Muitas vidas ainda sofrerão pela cabeça de Osama Bin Laden.

God bless America. Deus nos abençoe.

 Mário Freitas é missionário e dá uma mãozinha no Haiti.


[1] BOSCH, David J. Missão Transformadora: Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão. São Leopoldo: Sinodal, 2002, p.322.

[2] BOSCH, p.324.

[3] Ibid, p.354

[4] Ibid, p.362.

[6] Bosch, p.364.

[7] Ibid, p.364.

[8] Hutchison, William. Errand to the World – American Protestant Thought and Foreign Missions. Chicago: The University of Chicago Press, 1993. p.61.

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5 Respostas to “A MORTE DE BIN LADEN E O GLOBALISMO AMERICANO”

  1. Anderson maio 3, 2011 às 4:52 pm #

    Belo texto, Mário.

    Gostei principalmente sobre as observações a respeito do iluminismo. Mesmo mantendo-me protestante, Deus me deu a graça de desconfiar do protestantismo a partir do momento em que notei como este foi colonizado pelo iluminismo, sendo até compreensível confundir as duas coisas. Da mesma forma, o racionalismo grego e a religião romana investiram antes na colonização da fé cristã. Creio que um dos desafios do cristianismo contemporâneo é veementemente lutar contra essa colonização e, assim, impedir-se de ser usado pela cultura ou ideologia.

  2. Sinval Jr maio 3, 2011 às 10:10 pm #

    Infelizmente, vc está certo. Infelizmente há quem jamais entenderá isto. Infelizmente a visão puritano-romantica de mundo adoeceu de morte um sem número de cristãos.

  3. Dina Santana maio 4, 2011 às 1:45 pm #

    Obrigada Mario. Vc me deu respostas q procurava pra entender certos comportamentos dos americanos em missoes. Trabalhei com eles na Inglaterra e te digo que essa mentalidade continua… (pelo menos na maioria deles).
    Abracos pra voce e Giovana,
    Dina (esposa do Lucio da Jocum)

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