QUANDO A APOLOGÉTICA PERDE A RAZÃO

29 abr

Certa vez, assisti a uma palestra do treinador Bernardinho, da seleção brasileira masculina de vôlei, sobre princípios de liderança. O palestrante, líder mundialmente reconhecido e dono de um currículo esportivo quase irreparável, trouxe conselhos e desafios a um grupo de empresários, empreendedores e curiosos (meu caso). Um deles me marcou.

Bernardinho falou que sua paixão pelo vôlei se dá pelo fato de ser este um esporte com pouco contato físico. Sendo assim, o treinador precisa armar seu time apesar do adversário. Não há como neutralizar fisicamente o jogo do adversário, mandando caçar, por exemplo, o jogador mais talentoso do outro time com alguma jogada violenta. Não há como impedir o adversário de jogar. Se ele for superior, ele vai ganhar. É preciso planejar e trabalhar, apesar de quem está do outro lado da rede.

É assim no mundo corporativo. Alguém que quer vender seu produto precisa fazê-lo independente do concorrente – não se pode impedir o concorrente de vender. É preciso superá-lo, mas não é possível neutralizá-lo. Mas, o que dizer sobre o Reino de Deus?

É assim que funciona também. Há igrejas e movimentos crescendo em torno de um evangelho vazio, barato, e com pouco de Cristo em sua essência. Vemos práticas mercantilistas e mercenárias assolando o ambiente da fé. Por outro lado, há a igreja séria, ética, comprometida com os valores do Reino. Para crescer, essa última não pode neutralizar a primeira. Os marketeiros da fé, esses gananciosos e mal intencionados, sempre estarão por aí. É preciso que a verdadeira igreja se estabeleça apesar deles.

Tenho vários amigos apologistas. Eu os reconheço como apologistas, e vejo seriedade no que fazem. Mas tenho andado preocupado com a nossa apologética. Com o advento dos blogs, a defesa da fé tornou-se ainda mais acessível, e muitos articulistas da apologética se levantaram. Creio que isso seja válido. Por esta causa, sei que o presente artigo deve acabar gerando certa polêmica. Mas meu objetivo aqui, de forma desarmada e despretensiosa, é que observemos a apologética que temos praticado. Portanto, não tenho objetivos polêmicos, mas pacíficos. Passo assim a apontar alguns dos riscos que percebo temos corrido na nossa apologética recente. Quem sabe, isso pode causar em nós todos um despertamento positivo.

1) A Apologética perde a razão quando enfatiza o ataque

A apologética é basicamente a defesa da fé, e não o ataque às outras formas de crença. Originalmente, o pensamento apologético deve apresentar sobriamente o evangelho diante de qualquer ataque ou crítica que questione a validade do cristianismo e de seus valores elementares. A apologética verdadeira se dá em arenas como o debate entre cristianismo e secularismo, o debate entre fé e ciência, entre outros.

Creio que precisamos estar atentos aos falsos profetas, como a Escritura manda fazer. Creio ainda que não devamos tolerá-los. Nossas igrejas precisam estar protegidas, sim. Mas a verdadeira apologética não se constitui da busca por alvos de ataque, mas por uma proteção genuína às verdades basilares da fé cristã.

2) A Apologética perde a razão quando perde o amor na sua forma

O termo apologética é oriundo da palavra apologia, do grego. Originalmente, quer dizer simplesmente defesa verbal. Aparece no Novo Testamento 8 vezes, a saber: Atos 22:1; Atos 25:16; 1 Coríntios 9:3; 2 Coríntios 7:11; Filipenses 1:7; Filipenses 1:17; 2 Timóteo 4:16 e 1 Pedro 3:15. Esse último é o texto que mais reconhecidamente aborda a questão da apologética bíblica nos padrões que geralmente aceitamos para o termo.

“Antes santificai em vossos corações a Cristo como Senhor; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pedro 3:15).

Note três princípios elementares no texto.  A apologética, que é a resposta a todos quantos nos pedem a razão da esperança, deve ser feita: a) Como fruto da santidade; b) Com mansidão; c) Com temor.

A verdadeira apologética é oriunda da santidade, da busca de Deus. Segundo, ela deve ser feita com brandura, com mansidão, sem agredir. Vale lembrar que aqueles que pensam diferente de mim continuam sendo dignos do meu respeito. Por último, muitos perdem o temor quando se propõem a criticar. Isso não pode acontecer. Devemos continuar temendo a Deus ao tecer cada comentário.

Ou seja, a apologética bíblica não pode ser meramente fruto da discordância, ou proveniente de qualquer outra motivação. Muitos dos textos apologéticos recentes denunciam, até mesmo por seus títulos, que emanam da ira e do descontentamento com o progresso das falsas estruturas evangélicas. É irritante mesmo, mas nosso motivador para a defesa da fé precisa ser outro.

3) A Apologética perde a razão quando deixa de focar no essencial

A apologética originalmente visa defender a fé de qualquer ataque ou crítica que questione a validade do cristianismo e de seus valores elementares. O que temos a defender, em verdade, são os elementos basilares do cristianismo. Defendamos o credo. Defendamos que Jesus nasceu da virgem, viveu entre homens e como homem, morreu por nossos pecados e ressuscitou. Defendamos que Ele vive, assentado à destra de Deus, e que Ele volta.

Para mim, deixa de ser apologética quando o nosso foco é o carro que o apóstolo tal comprou, o cruzeiro onde a banda tal cantou, ou a roupa que a pastora fulana usou. Posso não gostar, não concordar, achar exagerado. Só não posso perder o foco. A verdadeira apologética defende teses acerca do cristianismo, não vive de antíteses.

CONCLUINDO…

Portanto, é preciso que paremos para pensar sobre a nossa apologética. Alguém já disse que a tolerância é a mãe das heresias. Eu concordo. Mas a intolerância, impiedosa e sem amor, pode ser a mãe de ministérios pouco eficazes na expansão do Reino. Curiosamente, esses movimentos sectários só crescem à medida que vão sendo criticados. Hans Burke dizia que “o meu inimigo vive da energia que eu dou a ele”.

Alguma coisa vai errado com a nossa apologética, isso é um fato. Que Ele tenha misericórdia de nós.

*Mário Freitas é um ser em obras.

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6 Respostas to “QUANDO A APOLOGÉTICA PERDE A RAZÃO”

  1. Elton Morais abril 29, 2011 às 4:44 pm #

    Ótimo artigo, eu estava pensando sobre isso nesses ultimos dias. Infelizmente, muitos blogs apologéticos agridem, xingam e fazem uma “defesa da fé” de forma que não convén a um cristão.

    Deus te abencoe.

  2. Bruno abril 29, 2011 às 4:45 pm #

    Paz, excelente pastor, excelente!

    Concordo com vc, em genero, numero e grau, aliás, vou colocar abaixo o que eu twitei esses dias atras:

    “A cada dia que passa, me assusto mais com o Twitter e com a capacidade de pessoas denegrirem seus ministerios e de outros… Wake Up dears!”

    “Este local é como um martelo, que pode ser usado para construir ou destruir lentamente vidas, reputações e a obra de Deus… #vergonha”

    “Pessoas renomadas em nosso meio atacando uns aos outros em busca de espaço, créditos e opiniões… o tempo que perdem aqui, poderiam estar..”

    “orando e fazendo a obra, deixando que Deus corrija o certo e o errado. Pastores que não tem tempo para suas ovelhas pois estão dedicando …”

    “tempo para pescar em aquarios alheios, ou ainda pior, pulverizar ainda mais a incredulidade alheia, pois se pessoa X fala e Y denigre, nada”

    “mais fará efeito. Há pastores/teologos aqui que deveriam estar proferindo a paz e irmandade, mas querem guerra, almeijam o Status…”

    “façamos nossa parte e em tempo oportuno Deus irá mostrar a Verdade, porém não percamos tempo e qrer fazer o q não nos cabe,”

    “façamos o que temos de fazer, proclamar o evangelho que é a Salvação, o Amor de Deus, o Perdão, a Justiça, a Palavra…”

    “a vontade do Pai, quanto as divisões do Reino, cabe a Satanás querer fazer, ae eu lhe pergunto,PRA QUAL DOS 2 PASTORES VOCÊS TEM TRABALHADO?”

    Estamos juntos Rev. Marcio, em prol do Reino dos Céus… o que precisar, na medida do possivel estou aqui.

    Abraços.

    Bruno Percinoto.

  3. Fabio maio 4, 2011 às 6:38 pm #

    Mandou bem Reverendo Mário. Defender nossa opinião é fácil. Difícil é abrir mão dela para defender o credo cristão.
    sua ovelha e servo
    Fabio Hertel

  4. Gidiel março 22, 2012 às 6:27 pm #

    Grande Mário!
    Texto muito bom…
    Decidi não comentar nada em meus perfis de redes sociais que caminhe pela via de uma apologética “vazia”, “invejosa” e “ineficaz”.
    Creio que anunciando a verdade contribuo para denunciar o erro.

    Siga em frente, bróder…

    Abraço largo.

    Gidiel.

  5. pst1224 março 28, 2012 às 3:47 pm #

    Gostei muito do seu texto, só me permita discordar de um aspecto do que você escreveu, quando diz: “deixa de ser apologética quando o nosso foco é o carro que o apóstolo tal comprou, o cruzeiro onde a banda tal cantou, ou a roupa que a pastora fulana usou. Posso não gostar, não concordar, achar exagerado”. Fé e prática andam juntos! Fé e comportamento andam juntos. Não se pode questionar uma coisa sem questionar a outra. Exemplo mais recente, o “apóstolo” Valdemiro. A heresia já começa pelo título, atualmente ele está sendo bombardeado pelas compras absurdas de bens materiais e colocando-os em seu nome, completamente incompatíveis com a fé cristã, com quem ele disse que era e que é, mas o problema do Valdemiro não é só isso. Recentemente ele declarou que Jesus não é eterno e que é a primeira criatura de Deus. Depois de bombardeado, ele tirou o artigo de seu blog, outro dia ele leu o Salmo 139, e entre tantas besteiras que falou, no verso que diz: “se no abismo está minha cama”, ele disse que esse verso dizia respeito a depressão, pobreza, miséria, doenças, etc. O contexto do salmo é a onisciência de Deus, entende? Ele usou o texto de modo espúrio, que aliás é uma prática constante dele. Por essas e por outras, é que acho que ele e outros devem combatidos, pelos ensinos que passam, mas também por suas práticas. Um abraço.

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  1. Quando a Apologética perde a razão : PavaBlog - maio 1, 2011

    […] Texto de Mário Freitas publicado originalmente no Fé Ativa […]

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