A Complexidade do Envio Missionário

27 ago

PENSAMENTOS SOBRE O CASO  DAGNALDO NO EGITO

Na última semana, o maranhense Dagnaldo Pinheiro Gomes, 36 anos, foi detido no Egito, onde aparentemente trabalhava como guia turístico ligado a uma empresa de São Paulo (clique). O jovem teria violado a lei local ao portar bíblias e folhetos evangelísticos em quantidade, o que caracterizaria suas intenções missionárias.

A namorada de Dagnaldo, Mariângela Vale, tentou apresentar o caso à imprensa como se tudo se tratasse de um mal entendido – teriam encontrado os folhetos e bíblias no carro, o que faz do jovem brasileiro quase que um portador involuntário (clique).

O problema é que Dagnaldo Pinheiro Gomes é, de fato, um missionário, com certo nível de preparação específica e com intenções evangelísticas claras no Egito (clique).  Ele servia o Projeto RADICAL da Missão Horizontes, numa parceria com sua igreja local, a Assembléia de Deus de Uberlândia/MG. Fala inglês e árabe com fluência.

O jovem acabou de voltar ao Brasil, e já antevejo as mais variadas reações. A imprensa o acusará de proselitismo e se utilizará do episódio para atingir os evangélicos. A igreja, por sua vez, o verá como herói da fé, perseguido pelo evangelho. Alguns o promoverão a “Indiana Jones” da causa cristã!

A Bíblia afirma que os perseguidos por causa da justiça são felizes, bem-aventurados (Mt. 5:10). De alguma forma, consigo vislumbrar que Dagnaldo sinta-se feliz por sofrer pelo Senhor. Eu me senti assim quando preso na China, também por conta da distribuição de bíblias no ano 2000.

Apesar disso, será que não poderíamos evitar a perseguição em algumas ocasiões? Não posso aqui julgar as causas do coração de um jovem que se dispôs a servir ao Senhor. Mas com a experiência missionária que possuo junto à igreja perseguida e sofredora, gostaria aqui de acender algumas luzes. Desconheço maiores detalhes do episódio que envolveu Dagnaldo; menos ainda sei sobre ele, sua vida, seu caráter e seu testemunho. Aparentemente, ele tinha o respaldo da Missão Horizontes e o “descuido” acerca das bíblias pode se tratar de alguma espécie de mal entendido. Portanto, meus questionamentos aqui não dizem respeito a ele, mas coincidem emergir nesse momento.

Meu primeiro questionamento diz respeito à especificidade da preparação missionária considerando cada campo missionário. O mundo árabe, por exemplo, é complexo, possuindo variações entre os diversos países. A língua é comum, mas mudam as leis, os hábitos, as convenções. Por vezes, missionários não cumprem as leis do país por falta de opção – mais vale obedecer a Deus que aos homens (At.4:19). Outras vezes, porém, não se cumpre a lei porque não se atenta para detalhes da cultura, ou simplesmente porque não se conhece a lei. Nossa missiologia precisa questionar tais elementos em nosso processo de envio. Já notei casos no campo missionário em que os obreiros se expuseram a perigos desnecessários.

Outra questão importante para ser lembrada é nossa política de envio de fazedores de tendas. Aparentemente, Dagnaldo era mesmo um guia turístico no Egito, e quero crer que ele tenha a formação adequada na área, e que trabalha legalmente nessa direção. O problema é que há muitos missionários que se utilizam de empregos e negócios “de fachada”.

Como missionário, já percorri países fechados para o evangelho, mas não consigo deixar de ver esse tipo de proposta à luz do engano. É plenamente possível estar em campo missionário executando tarefas que gerarão frutos verdadeiros para o país em questão. Aliás, a proposta dos fazedores de tendas é fascinante. Como médicos, engenheiros e educadores, por exemplo, vi dezenas de irmãos deixarem contribuições extremamente relevantes na China, onde vivi por alguns anos. Há empresários que montam negócios reais e lucrativos, que fazem girar positivamente a economia local, e pregam o evangelho no contexto de business.

Mas vi também falsas empresas, que utilizam-se de um registro local (semelhante a um CNPJ brasileiro) somente para fins de concessão de visto de residência. Essa alternativa é desleal e enganosa, podendo constituir um péssimo testemunho cristão em pleno campo missionário.

O que Dagnaldo Pinheiro Gomes possui a seu favor é a cobertura espiritual de uma igreja e de uma agência missionária idônea. Tais conexões são capazes de protegê-lo de maiores transtornos e ajudá-lo até mesmo a voltar ao campo. Infelizmente, é quase impossível que esse campo possa ser o Egito. Desconheço as oficialidades do processo, mas é provável que seu passaporte tenha sido banido daquele país. Ainda assim, Dagnaldo tem potencial para servir o Reino em vários outros lugares e de várias maneiras. Tenho convicção de que a experiência o ajudou, e o ajudará por muito tempo.

Que Deus o abençoe, Dagnaldo. Bem vindo de volta!

* por Mário Freitas

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