SINTETIZANDO A VIDA

25 ago

PORQUE PODEMOS ESTAR PERDENDO TEMPO…

No último domingo, dia 22/8, eu voltava de Brasília para Belo Horizonte num vôo que chegou à capital mineira às 16h. O fim de semana no Distrito Federal havia sido cansativo: várias reuniões e cultos. Agora, eu ainda tinha diante de mim o desafio de chegar a Confins, tomar um taxi direto para a igreja onde pastoreio e participar de dois cultos seguidos, um às 17h e outro às 19h.

Durante o vôo, o cansaço me abateu. Eu imaginei que cinco anos atrás eu teria “tirado de letra” uma maratona semelhante. Mas não tenho mais o mesmo vigor. Eu folheava um livro sobre missões, quando uma frase me atingiu bem no meio do peito:

“A idade nos obriga às sínteses” (Rubem Amorese).

Fiquei incomodado. Eu já tinha um sermão preparado para pregar na igreja, mas lembrei-me imediatamente do Salmo 90 e resolvi lê-lo. Contar os dias: esse era o desafio! Bateu-me a convicção de que cada dia que passa eu tenho menos tempo para efetuar o propósito de Deus em minha vida.

Curioso é que tantos olham para minha trajetória como modelo de efetividade ministerial: fui missionário, e hoje sou pastor-missionário. Mas quanto tempo eu tenho para cumprir cabalmente a vocação?

Ali mesmo no avião, fui conduzido pelo Espírito a rabiscar algumas notas e mudar completamente o que pregaria na igreja em poucos instantes. Não foi um sermão, foi uma confissão. Uma confissão de fraqueza, de limitação, de inquietude. Cheguei a conclusões que aqui desejo compartilhar, rogando a Deus que desafie o teu coração como fez comigo.

A primeira conclusão a que cheguei foi que precisamos contar os dias porque nem sempre viveremos toda a vida que queremos. Curioso, mas o ser humano vive para evitar a morte. Aliás, um dos maiores erros do homem é viver como se não fosse morrer. Sei que o assunto é desconfortável e parece fatalista, mas é preciso falar sobre isso. O Salmo 90 deixa claro que nossa vida pouco vale, nossos anos são como um breve pensamento (v. 5 e v.9b).

As academias estão cheias de pessoas querendo viver. E é nobre amar a vida. O problema é que por mais cautelosos que sejamos com a saúde, com o trabalho e com todos os recursos de conservação da vida, não podemos determinar sua duração. Jesus afirma: “Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?” (Lucas 12:25). Assim, conheci pessoas saudáveis, que valorizavam a vida, e morreram ainda jovens vítimas de um acidente ou de uma doença incurável. Por outro lado, convivo com idosos que muitas vezes se alimentam mal, ao menos conforme os padrões da saúde contemporânea, ingerindo gorduras e vivendo sedentariamente, mas que inexplicavelmente chegam perto dos 100 anos. A conservação da vida pode seguir alguma lógica, mas não muita.

Pois bem, se não sei quanto tempo terei, preciso usar o tempo que ainda me resta. Posso não ter todos os anos que projeto para cumprir o propósito de Deus em minha vida. Simples assim.

Uma segunda coisa que me abateu foi justamente a falta de força física. Precisamos contar os dias porque nem sempre a vida terá a mesma qualidade. Sou ainda jovem. Mas poucos anos atrás eu tinha maior resistência. É possível notar a diferença de vigor entre um jogador de futebol de 18 anos e outro de 30. O segundo terá que utilizar da experiência para superar o primeiro pois, mesmo sendo ainda jovem e atlético, já não tem 18 anos. Esse tipo de situação me remete às palavras de Saramago: “A juventude não sabe tudo o que pode, e a velhice não pode tudo o que sabe”.

Agora já sinto cansaço em cada maratona. E sei que em alguns anos sentirei ainda mais; na verdade, quanto mais o tempo passar, mais distante estarei daquela condição que me permitia fazer tudo quanto queria. A velhice pressupõe cansaço (v.10). Por isso preciso sintetizar. Não sei se terei toda a qualidade cardíaca, pulmonar, cerebral e mesmo emocional para fazer daqui a dez anos o que hoje já tenho diante de mim. Então talvez o melhor seja não esperar dez ou vinte anos.

Por último, noto que precisamos contar os dias porque nem sempre os dias serão agradáveis. Conforme a cosmovisão judaica, todas as tribulações da vida eram oriundas do juízo e da ira de Deus (v.7 e v.9a). Não se tem domínio sobre a longevidade, nem tampouco sobre a qualidade da vida que se terá no que tange ao vigor. Mas também assusta a perspectiva de que tempos ruins podem vir.

Por mais que isto esteja na contramão do evangelho que tem sido característico de nosso evangelicalismo brasileiro, a caminhada com Deus pressupõe tribulação (João 16:33). Preciso, pois, contar os dias hoje porque não sei como serão os dias vindouros. Preciso contar os dias hoje, aproveitar as oportunidades todas que Deus me der, porque simplesmente não sei se haverá oportunidades amanhã.

Em suma, preciso ser hoje tudo quando Deus quer que eu seja. Posso não viver tanto quanto quero; posso não viver amanhã com a força que hoje ainda tenho; posso não viver com as facilidades e oportunidades que Deus tem me dado. Não há tempo a perder. Sintetizemos a vida complexa, e sejamos bênção. Aqui e agora.

* Por Mário Freitas

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