NOVO PROTESTANTISMO OU NOVA REFORMA?

16 ago

Os evangélicos do Brasil alvoroçaram-se ao ver a Revista Época, do grupo Globo, publicar em sua edição de 9 de agosto de 2010 uma matéria de capa entitulada “Os Novos Evangélicos”. A reportagem registrava o advento de um novo movimento envolvendo os cristãos protestantes do país, propondo combate às distorções e corrupções característicos da igreja evangélica brasileira.

É inquestionável a necessidade de que os cristãos protestantes do Brasil se posicionem e se dissociem daqueles que mercenarizam a fé e distorcem as verdades bíblicas. Combater aquilo que destoa da proposta original de Cristo para a Sua igreja não consiste em rebelião ou falta de unidade. Pelo contrário, pecaminoso seria que nos agremiássemos junto aos que corrompem a fé simples e prática do evangelho.

Uma repercussão positiva na mídia já pode ser considerada uma resposta às orações desses que representam um cristianismo centrado e ético. Considero precioso o fato de uma revista secular, tantas vezes manipulada pelos interesses da “indústria global”, preocupar-se em entrevistar e apresentar líderes de boa reputação e equilibrados doutrinariamente, como Ricardo Agreste, Ed René Kivitz, Robinson Cavalcanti, entre outros.

No entanto, uma preocupação invade o meu coração. Na verdade, sempre fui incomodado com a realidade de nunca termos vivenciado na cristandade uma verdadeira reforma – esta teria ocorrido se a igreja romana tivesse sido transformada em sua própria estrutura. O que houve no século XVI, a partir da iniciativa de grandes líderes como Lutero e Calvino, foi uma cisão. Houve um desmembramento que passamos a tratar como se uma verdadeira reforma tivesse ocorrido. Reformar uma casa implica em mantê-la onde está, ainda que quase nada do prédio original seja conservado. Construir uma outra casa em outro lugar não contribui em nada na reforma da velha casa.

Eu ainda creio na necessidade de uma reforma dentro da igreja protestante brasileira, esta que nós temos aí, cheia de manias e defeitos. Não é a primeira vez na história que o povo de Deus se corrompe por ouro. E é também presente já na Bíblia a formação de líderes despreparados e que pregam o que a Escritura jamais sugeriu. Nada é novo, mas parece que a postura de Deus sempre foi a de efetivamente reformar.

Precisamos de uma reforma, não de um novo protestantismo. Para reformar, Deus já usou catástrofes, cativeiros e mesmo o seu próprio silêncio. Mas nunca dividiu. É por isso que não creio seja necessário o advento de uma outra igreja. Se Deus é onipotente, Ele pode mudar até mesmo essa igreja nacional que não quer mudar. Se eu não creio que Ele pode transformar o coração de qualquer homem, incluindo os líderes eclesiásticos mais corrompidos, eu posso estar indiretamente afirmando que a resgatabilidade do seu poder é limitada. Crer que somente um novo movimento pode trazer a solução, e que a reformulação do velho movimento seja perda de tempo, pode configurar falta de fé.

Esse artigo visa somente levantar questionamentos. Respeito grandemente a preocupação daqueles que querem apresentar diante do Senhor uma igreja brasileira sem máculas. Mas temo esses processos, e passo a apresentar alguns dos riscos que vejo neste possível novo movimento.

1. É uma tendência que pode tornar-se a prioridade ministerial de alguns – Temo que alguns líderes, ainda que bem intencionados, se apeguem a esse rótulo dos Novos Protestantes, e que a tendência se torne um fim em si mesmo. Nesse sentido, o ministério de alguns pode limitar-se a distinguir-se dos demais, sem outro objetivo. Defender uma postura Eclesiástica, por mais correta que esta seja, não deveria eliminar da igreja a prioridade de pregar o evangelho de Cristo.

A visão de estabelecer um novo formato de evangélicos não pode se tornar maior do que o cumprimento da grande comissão, que vislumbra produzir mais evangélicos. A qualidade dos crentes deve preocupar mais a igreja do que a quantidade deles; no entanto, o chamado geral da igreja é pela evangelização.

Já vi pastores dizendo que o papel da igreja é distinguir a verdadeira igreja da falsa igreja. Mas biblicamente, o papel de separar o joio do trigo é de Deus. O papel da igreja deveria ser outro. E essa tendência, nessa fase dos novos evangélicos, pode maximizar-se.

2. É uma tendência que critica polarizações mas é elitizada – Não tenho como deixar de falar sobre isso. Pode haver exceções, mas em geral o pentecostalismo é um movimento que emergiu entre os pobres, e isso também é verdade sobre o neo-pentecostalismo. Diga-se de passagem que o pentecostalismo clássico do Brasil traz consigo propostas extremamente belas e igualitárias. Na igreja pentecostal, o servente de pedreiro é patrão: basta estar cheio do Espírito Santo! Infelizmente, o neo-pentecostalismo foi distorcendo o que o pentecostalismo tinha de mais belo, em torno da proposta do enriquecimento.

Já esse novo protestantismo emerge das denominações históricas, as quais, por sua vez, representam (genericamente) a elite cristã do país. Essa elitização não é somente econômica, mas definitivamente atinge a dimensão cultural e intelectual. Por isso começamos a ver, segundo a própria reportagem acima mencionada, jovens blogueiros de classe média invadindo um evento como a Marcha pra Jesus para reivindicar da igreja uma postura ética, mas numa proposta rebelde e colonialista que não efetuariam numa parada gay.

Sem contar que grande parte dos pensadores do novo protestantismo tiveram acesso à educação teológica norte-americana, e fundamentam muitos de seus pensamentos em autores americanos que criticariam o atual protestantismo brasileiro sem tê-lo vivenciado. Isso faz com que a tendência do protestantismo à brasileira clame brasilidade mas seja americanizada.

3. É uma tendência que pode gerar orgulho espiritual – Com base em pressupostos autênticos de honestidade e ética, alguns podem ultrapassar certos limites e “denominar-se” reformadores.  Depois de algum tempo, pode acontecer que as igrejas consideradas efetivamente protestantes sejam aquelas que mantém um discurso aceitável para um determinado grupo. Além do discurso, o modus operandi das comunidades eclesiásticas já começa a tornar-se alvo de análise crítica. Toda forma de liturgia carismática, por exemplo, pode soar manipulador e pouco cristocêntrico. Conheço de perto alguns desses novos reformadores, e sei que para muitos cantar Milton Nascimento nos cultos já é mais espiritualmente aceitável que cantar canções repetitivas que falem do Espírito. Todo o gospel torna-se ruim, e todo refrão que repita que Deus é santo passa a ser apelidado de mantra.

Meu objetivo aqui não é reivindicar que venhamos imprimir sobre a igreja uma tolerância ilimitada. Não podemos tolerar o intolerável. Mas temo que toda essa filosofia do novo cristianismo seja mais uma tacada satânica para fazer com que a igreja saia do seu foco original. Fomos chamados para pregar o evangelho de Jesus, não importa que outros não o façam com a mesma seriedade. Falsos profetas? Eles sempre estarão aí. Se maximizarmos o bem, o mal naturalmente será neutralizado.

* por Mário Freitas

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4 Respostas to “NOVO PROTESTANTISMO OU NOVA REFORMA?”

  1. Rick Serrat agosto 16, 2010 às 12:55 pm #

    Pastor, eu li e entendi sua colocação, só não entendi o pq de chamar isso de um “movimento” que pode atrapalhar e trazer divisão. Sendo que a ninguém fala de uma nova igreja, e sim de uma nova postura, ninguém está montando uma nova denominação ou rotulando algo novo.
    No artigo da revista, se fala de lideres e membros de varias denominações, não acredito que isso venha trazer divisão e mudanças negativas a igreja como um todo.
    Afinal sempre temos grandes lideres religiosos em capas de jornais e revistas, e as denominações deles sempre estão em “UP” mesmo o povo vendo que estão sendo acusados de coisas ilícitas e erradas diante das leis do homem e da lei de Deus.

    Também não entendi essa parte: “Por isso começamos a ver, segundo a própria reportagem acima mencionada, jovens blogueiros de classe média invadindo um evento como a Marcha pra Jesus para reivindicar da igreja uma postura ética, mas numa proposta rebelde e colonialista que não efetuariam numa parada gay.”
    isso seria um julgamento ou um prejulgamento?

    Prabéns pelo texto, e isso ai é democracia!
    Paz e Graça!

  2. Rick Serrat agosto 16, 2010 às 1:01 pm #

    e outra coisa que pergunto.
    Como trazer um gay para uma igreja homofobica e doente como essa igreja que está ai?

  3. FÉ ATIVA agosto 16, 2010 às 1:54 pm #

    Rick, obrigado pelo comentário, e pela forma bíblica, coerente e não hostil de questionar. Minha grande ênfase aí está no desenvolvimento de uma mentalidade crítica como se isso fosse um fim em si mesmo. Por exemplo, ir fazer manifestação pela ética dentro da Marcha pra Jesus eu julgo sim como perda de tempo, e talvez um gesto de imaturidade da nossa juventude evangélica. Perceba, eu não sou a favor da Marcha pra Jesus – acho que os evangélicos precisam mais de um Dia Nacional do Arrependimento. Mas não iria lá avacalhar o movimento dos caras, e honestamente isso é tudo o que esse tipo de manifestação consegue fazer. Acho que há outras formas de dialogar. Eles não fariam isso numa passeata gay, embora sejam contra. Mas numa passeata do “evangelho corrompido”, precisam protestar.
    Cada um deveria fazer o seu. Se eu maximizo o bem que marca o evangelho da graça, o mal vai perdendo vez. É nisso que eu creio!

  4. Rogério Breder agosto 17, 2010 às 6:24 pm #

    Parabéns Pr. Mário!!!
    Concordo plenamente com sua posição, e, principalmente o item 3, que inclusive na frase “… uma tacada satânica para fazer com que a igreja saia do seu foco original.”, eu diria porque não: “e também do seu fogo original”.

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